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44th

A [minha] fé ecumênica e nem sempre divina do ano passado deu um jeito de abençoar alguns dos meus delírios num improviso que só o jazz sabe fazer com elegância. E fez. Aos trancos. Aos barrancos. Aos berros. Aos sussurros. Num absurdo que nem sei. Num amontoado de emoção que sinto na pele que arrepia até depois que passou, que acabou, que se fez fim pra começar outro improviso ainda mais cheio de propósito e instinto. Acontece que é um tanto difícil assumir compromissos e não falhar mesmo planejando cada acorde, cada passo, cada conversa com afeto e cuidado. É como fazer uma playlist chamada “como destruir a vida em alguns riffs” e colocar aquela música que sempre fez parte da felicidade num lugar que não deveria. Não era para ser. Estraga tudo. Talvez por isso a gente se decepciona tanto com as frágeis promessas das pessoas. A gente acredita, sabe. A gente é fiel quando aquela música que trazia leveza passa a machucar e a muda de lugar. Já as pessoas não. Elas vão te foder enquan...

MAIS UM POUCO DE MUITO

Mais um ano pandêmico. Mais um ano morando numa bolha quentinha, em condições ideais de temperatura e baldinhos de café contrapondo a condições caóticas de pressão emocional e [des]governança política. Ouvindo a versão mais linda do deus Bob Dylan na voz de Gal Costa e Jorge Drexler em repetição porque a versão folk te implorando " Vá, ande, junte tudo que puder levar " é incentivo-abraço-delicadeza.  2021 passou correndo, veloz, atroz. É bom estar viva. É, também, dolorido quando as pessoas deixam de existir e você fica ali, como testemunha. Sempre verbalizei que gostaria de saber quando fosse morrer para poder me despedir da vida do meu jeito e a Ingrid teve essa possibilidade e fez isso com uma delicadeza difícil de ilustrar. Foram seis meses compartilhando seus dias. Suas danças na sala com o irmão e com o pai. A última live no hospital para que todos os seus, em todos os lugares do mundo, pudessem dizer o quanto a amavam e eram amados por ela. Se existe coisa mais bonita...

42th

“Já quis muito mudar o mundo, agora quero que o mundo não mude quem eu sou” é uma das poucas verdades que faço oração, mantra, desejo, guia ou seja lá o que for que norteia palavra lançada, escolhas e partidos. Porque se demora muito para entender o valor disso. A versão 42 chega no [meu] 125º dia de quarentena que parece um parque de diversões sem luzes, sem gente, sem diversão enquanto a escala Richter emocional celebra o estado mínimo das coisas íntimas que muitas vezes confunde alívio com alegria. Há uma linha do Equador todo dia para lembrar que limite é uma questão teoricamente moral ainda que seja praticada com o lado passional do arco venoso. Ainda assim há planos breves de felicidade como sempre houve por aqui. E eles têm acontecido ainda que pareçam tão meridianos num passinho que vai e vem como numa canção que abraça. Quem sempre aqui esteve continua prolongando temporada e no final das contas é o que [para mim] importa. 

41th

A previsão é de planetas retrógrados provocando eclipses, mas minhas coordenadas astrais são de lua, de amor, de trilha sonora sofisticada, de bem-querer, de tirania fantasiosa, de vingança furta-cor, de palavra que tinge qualquer silêncio constrangedor. E desde o momento que resolvi me salvar dos coisos hostis, das coisas que não valem o sorriso e dos horóscopos mais ou menos, meu universo particular, no auge da minha ingenuidade militante, tem feito mais sentido. Ano passado, nessa mesma época, fui livro. Esse ano estou sendo cinema. Perto de quem me esperança. Junto de quem admiro. E como o amor tem dessas coisas de morar onde é abstrato - por isso não se vende em lojas de departamentos, nem se compra com todo dinheiro do mundo, e pode até ir embora que fica – faço oração sagrada em modos afetivos como patuá. Quero pra agora. Pra já. Tudo que me é por direito, nem sempre adquirido, mas por muita vontade. Como diria Belchior, “o tempo andou mexendo com a gente sim...  A fel...

A LAVADEIRA DE ALMAS

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[A Lavadeira de Almas, Camila Morita] 2018 começou lá na ilha na companhia de quem sempre esteve na minha vida desde nosso primeiro encontro. Não sei se você tem muita gente que está presente desde o começo, mas em tempos difíceis para os sonhadores isso é um privilégio! 2018 foi repleto de dureza. Empoderaram a estupidez e a crueldade e nunca uma pré-eleição presidencial foi tão dolorida. Por consequência reorganizamos as relações, as prioridades, quem senta ao redor da mesa com leveza, quem não se incomoda com a sua felicidade, quem está junto na prática, no cotidiano - não sei como foi com você, mas esse processo também é dolorido, ainda que necessário para que haja alguma felicidade. Daí teve Radiohead depois de nove anos - mais um privilégio ter estado nos dois shows - e Buena Vista Social Club junto com a minha irmã - e insisto dizer que todo mundo deveria um dia dançar ao som de Buena Vista Social Club, curvar-se à presença da Omara Portuondo e não esquecer que a gent...

40th

O melhor de mim está nas páginas do  De Analgésicos & Opioides  que hoje, no meu réveillon pessoal, ganha sua versão impressa. A data é proposital, é de todo [auto]afeto e de um pouco de coragem. Porque os sentimentos são todos meus, mas os pronomes não. Porque os capítulos são de quem quiser, embora possam ser confundidos com alguma biografia não autorizada. Porque passei a vida toda lendo gente incrível e escrevendo " solo " entre colchetes. Mas a vida toda até aqui não é a vida toda de fato, então tenho aprendido a escrever junto, a declamar em alto e bom som o que parece verso livre, a fingir que a timidez não existe na hora de expor o que era só coisa do lado de dentro, e que depois de um jazz rasgado deve-se colocar um Alceu Valença para tocar na sala de estar, afinal, a vida - seja ela antes ou depois de entender as coisas - requer um dengo.  E já que acabei de chegar numa versão de mim em que as pessoas parecem saber das coisas, procurei abrigo em quem já...

MACHUCADOS

Era uma vez um amontoado de equívocos. Todos levados a sério demais. Doloridos. Comprimidos em cavidade torácica. Num estica e solta entre glote e nó. Era uma vez um menino de trinta e tantos anos preso na própria angústia que se fez grandeza meio a tanta pequenez. Era uma vez uma vida cheia de absurdos descontrolados em uma fantasia de mau gosto. Todos terminados em sopros, tarjas e engasgos.

COMO NUM MUSICAL DOS ANOS 30

Ele já não cabia mais no que era lembrança. Apareceu, vinte anos depois com tons grisalhos e costas largas, como se nunca tivesse ido embora e deixado o amor que sentia do lado fora. Sussurrou que precisava continuar, mas que agora do lado de dentro dela. Podia até ser numa película de alguns milímetros desde que ela soubesse dizer ‘eu te amo’ em corpo e gosto presentes.

FIRULAS

Quando te faço literatura retiro tudo aquilo que te faria fim e transbordo. Cometo exageros que você aceita só porque estão na horizontal. Aos pés da cama. De ponta cabeça. Em lisura poética. Eu te julgo incapaz e você sorri só porque acha que é ficção. Sufoco palavra em alguma má educação e você ri porque acha que é graça. Minto figura de linguagem e você acredita que é tudo questão de estética. E resta-me, no decorrer dos parágrafos e na advertência das pontuações, aceitar que continuamos despreparados sobre nós.   

DOS AFETOS TODOS [OS NOSSOS E OS DOS OUTROS]

"Os afetos. Ter tempo para cultivar os afetos..."   [disse Pepe Mujica numa dessas entrevistas que a gente precisa rever com frequência] 2017 foi um ano cheio de afeto e um dos lugares-pertencimentos mais bonitos será sempre aquele mar intenso de Recife , que passos à direita se fazia Tamandaré e passos à esquerda Carneiros. Lugar que contém histórias minhas por direito, mas não por herança - um tipo de genética contruída por desavenças provençais e amores românticos, por fugas de cordel e encontros compadecidos - pois a história da gente geralmente começa lá longe, onde nem sempre se esteve, em gente que nem sempre existe em dias úteis, e que num olhar mais cuidadoso, faz todo sentido. Os afetos também se fizeram música, num show lindo da Maria Gadu , num espetáculo que mais parecia uma festa do Midnight Oil , naquele tributo foda em homenagem ao Belchior . Os afetos também têm nome, sobrenome, tem sabor de cerveja, café, cabe num abraço longo, quentinho, naquela c...

AÇÃO DE GRAÇAS

Quero agradecer tudo que somos. Tudo que temos. Tudo que, juntos, fizemos. Quero agradecer por não desistir mesmo que tenha tido vontade, e por não ter deixado que eu desistisse quando tudo parecia insuficiente e pela metade. Quero agradecer por ter chegado até aqui. Olho tudo ao redor e acho que realmente somos bons nisso. E se tiver outra vida quero esbarrar em você de novo só para poder continuar em você. [E com você]. 

QUANDO SOUBE QUE TE PERDI

A vida também é um triste perder mesmo que não se queira ganhar. É aquela sensação estranha de fragilidade quando já te deram o selo [equivocado] de fortaleza. Do choro de medo mesmo quando você sabe que consegue resolver qualquer coisa que está por vir. Do turbilhão de surpresas boas que também são ruins. É dor que só machuca quando a gente sabe da onde ela veio. É laudo assinado para ficar registrado. É susto que passa e afaga num colo macio fazendo a gente esquecer que daqui a pouco vem outro. 

DAR À LÍNGUA

A minha língua encosta na sua e faz aquela dança improvisada ritmada em respiração descompassada. E é nesse exato momento que eu acho a gente incrível. Ficaria ali por todo tempo, intercalando repouso e movimento nem sempre retilíneo e delicadamente uniforme. Ficaria ali, entre saliva e tomada de fôlego.

39th

Tenho um quase segredo. Um segredo que conto para quase todo mundo. Que desejo aos outros nos dias dos outros. Que me faz ano novo sem ser dia primeiro: a vida fica mais leve em temporadas e os dias eu conto em episódios. Ter vésperas e antevésperas especiais tornam o nosso melhor dia um quase feriado prolongado. E a obsessão por fazer trilha sonora em playlists com títulos enormes ou tomar como minha a de alguém que entenda de afeto [me] fazem ter um norte quando as coisas parecem confusas, ou então só garantem uns bons sorrisos que de “só” não têm nada. Parece bobo, eu sei. E talvez até seja. Mas ainda assim é bom enxergar a vida como palco e plateia. É bom crescer e saber que coisa boa mesmo é dançar descalça em casa aquela música que você e meia dúzia de gente conhece. Que refrão bom é aquele que todo mundo canta da música que dá vergonha. Que crescer é ser responsável, mas sem perder a ternura, a piada, o riso e o abraço. Parece fácil, eu sei. E talvez até seja. Mas conheço p...

DA TUA GRANDEZA APRE[E]NDIDA

Quem te ensinou a inclinar o corpo para a direita enquanto sorri após uma boa ideia? Quem te ensinou a demorar abraço? Quem te ensinou a dizer essas coisas todas que [me] são importantes?  Quem te ensinou a curar a dor de palavra frágil até transformá-la em figura de linguagem? Quem te ensinou a sobreviver com tanta delicadeza?!

DO AMOR QUE SE GRITA PELA JANELA

Ele jura pelo Cash que seu amor equivale a toda poesia que derrama nas paredes, nos lençóis, na sua maneira desajeitada de fazê-la importante. Ele jura, declamando versos urgentes decorados com rima sofisticada e obscena, que ela o melhora a cada dia. Ele pede, com toda ternura de quem grita pela janela, que ela fique. Pelo menos uma vez para que seja para sempre. 

ENTRE SUAS BADERNAS

Do seu punhado de fome tenho sede. Da sua raiva que falece a cada respirar profundo sinto dor. Do toque suave das suas mãos [te] desejo: Em frações. Em segundos. Em uma breve eternidade que escorre margem. Em afeto e excitação. 

GLITTER

Vai, atropela alegoria. Harmoniza sua carne com a minha já que é carnaval. Perca o compasso do bloco para seguir samba que nem tem enredo. Vai na ginga, na malícia, no baile, sem máscara, emaranhando em nós toda cor de serpentina. Está chovendo purpurina, mas guardei glitter para fazer tempestade na quarta de cinzas.

[ME] DEMORA

Prorrogue o alongamento dos seus braços nas minhas pernas. Pode atrasar em mim. [Me] acomoda. Fique mais um pouco. [Me] demora para que eu possa te fazer vértice. [Me] encontra aqui em mim.

BASEADO EM DORES REAIS

Dedinho do pé na quina de um móvel qualquer. Braço quebrado. Acidente de carro. Gente que vai embora sem explicar. Gente que fica só para atrapalhar. Palavra mal dita. Afeto escondido. Você, que conjuga as nossas pessoas fora de todos os tempos.