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Mostrando postagens de Janeiro, 2013

TODA SATISFAÇÃO

Ela não gosta do gosto cristalizado do açúcar, mas abusa do direito de afeto. Ela não é de obviedades que derramam, mas transborda gentilezas. Ela parece forte, e é. Ela nunca se veste de fragilidades, mas as coleciona. Ela apavora. Ela se apavora. Quando não sabe o que fazer. Quando não sabe o que dizer. Quando tem medo de sentir medo. Ela é agravo de instrumento. Ela é toda satisfação.

OTTO [11.01.2013 - SESC SANTO ANDRÉ]

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[Otto - Sesc Santo André - 11.01.2013] Foram quase duas horas de poesia musicada do pernambucano mais inquieto e doce de todos os tempos. Foram quase duas horas de divertimento, com direito a cantigas de roda, parênteses incompletos e disléxicos que lhe são tão peculiar, saudações à Fidel e piadinhas domésticas [ele deixou bem claro que precisa cantar muito para pagar a pensão da Betina, sua filha]. Foram quase duas horas de passeio-delícia pelas faixas do seu mais recente álbum [The Moon 1111, que trás sua versão pernambucana de referências do cinema de Truffaut e do rock progressivo do Pink Floyd], de exaltações ao manguebeat com "Da Lama ao Caos" e "A Praieira", e de coro-euforia quando cantou faixas do álbum "Certa Manhã Acordei de Sonos Intranquilos" [que por sinal, morro de amores!] O show, com lugares marcados, fez-se "quintal" logo na segunda música: não dava para ficar sentado. Otto é aquele tipo de menino grande que te faz

DOR

Hoje soube que você foi para outro lugar. Um lugar que eu não vou visitar porque de alguma forma você também não estará lá. Não sei de quem foi a ideia de fixar lugar para ausências. Hoje também senti a sua falta mais do que ontem. Menos do que alguns outros dias, mas o suficiente para ser dolorido. Tive vontade de brigar de novo com Deus. O seu, o meu, o de quem tivesse passando por mim. Hoje eu acordei e tive vontade de contar coisas que ficaria orgulhoso de saber, mas aí percebi que já faz tanto tempo que você não sabe nada de mim que doeu. Doeu tanto que te fiz parágrafo, porque não consegui [te] fazer poesia.  

FOTOGRAFIA

Ela olha suas fotografias todas e percebe pela primeira vez que poderia escolher fotografar um só rosto, um só corpo, e ainda assim, registrar todos os sorrisos, gestos, e olhares sem repetição. Pela primeira vez ela entendeu que podia fotografar a alma de alguém e ainda assim preservá-la.

O QUE VOCÊ FEZ DAQUILO QUE TE FIZERAM?!

Da alegria, fiz repetição, abraço e fotografia. Da trilha sonora, parte de mim, como quem toma emprestado por algum direito. Do e-mail-despedida disfarçado de literatura, tenho feito ponte, entre a minha vida e o que restou da vida dele. Da perda da cúmplice, amiga e avó tenho tentado fazer justiça ou alguma coisa menos dolorida. Do encontro com o Chico [o Buarque] , felicidade. Do encontro com o Morrissey , a mais fantástica realidade. Do encontro com Ian McCulloch , continuação [em suspiros em sustenido]. Da maldade alheia, fiz depois de toda raiva, um manual de boas maneiras com luva de pelica. Do fim do mundo, recomeços e encontros com quem sempre esteve na minha vida. Da dor, fiz analgésico. Do entusiasmo, opioide. Do trabalho, verdade sem cansaço. Das minhas inspirações, literatura e intimidade. Da imaturidade, tentativa nem sempre exata de deixar a teimosia de lado. Da véspera, ansiedade. Do amor, taquicardia [mas sei que preciso aprender a transformá-lo em toda calma].