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42th

“Já quis muito mudar o mundo, agora quero que o mundo não mude quem eu sou”é uma das poucas verdades que faço oração, mantra, desejo, guia ou seja lá o que for que norteia palavra lançada, escolhas e partidos. Porque se demora muito para entender o valor disso. A versão 42 chega no [meu] 125º dia de quarentena que parece um parque de diversões sem luzes, sem gente, sem diversão enquanto a escala Richter emocional celebra o estado mínimo das coisas íntimas que muitas vezes confunde alívio com alegria. Há uma linha do Equador todo dia para lembrar que limite é uma questão teoricamente moral ainda que seja praticada com o lado passional do arco venoso. Ainda assim há planos breves de felicidade como sempre houve por aqui. E eles têm acontecido ainda que pareçam tão meridianos num passinho que vai e vem como numa canção que abraça. Quem sempre aqui esteve continua prolongando temporada e no final das contas é o que [para mim] importa. 

TODO ANO TINTO MERECE UM BRINDE [E CONTINUAÇÃO]

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Pela primeira vez bebi mais vinho que cerveja - já posso dizer que 2019 foi um ano tinto. Como todas as outras vezes, muito café. Ora solo. Quase sempre [bem] acompanhada. Testando harmonizações. Aprendendo um pouquinho pra passar o tempo de gente com os mesmos interesses e retrogostos. Se 2018 foi um ano literário, 2019 foi cinematográfico. Culpa deliciosa das boas companhias que a gente tem na vida, de sentimentalidades cheia de blues, de choro na raiz do country, de sofisticação como o improviso de um bom jazz. Fui no meu primeiro festival como roteirista. Fui tão bem acompanhada que faria isso pro resto da vida. O coração continua visceral. Dói mais que deveria - ainda assim, seguimos testando todo ritmo que faz palpitar. Não vou contar os mortos - foram tantos! Deixo isso para os dias doloridos, pro ronronar do Kolber que sabe a hora precisa de ficar e para a intimidade de quem me empresta o silêncio para desatar nós que congestionam garganta. Mas conto, ao vivo, para os vivos, …

41th

A previsão é de planetas retrógrados provocando eclipses, mas minhas coordenadas astrais são de lua, de amor, de trilha sonora sofisticada, de bem-querer, de tirania fantasiosa, de vingança furta-cor, de palavra que tinge qualquer silêncio constrangedor. E desde o momento que resolvi me salvar dos coisos hostis, das coisas que não valem o sorriso e dos horóscopos mais ou menos, meu universo particular, no auge da minha ingenuidade militante, tem feito mais sentido. Ano passado, nessa mesma época, fui livro. Esse ano estou sendo cinema. Perto de quem me esperança. Junto de quem admiro.
E como o amor tem dessas coisas de morar onde é abstrato - por isso não se vende em lojas de departamentos, nem se compra com todo dinheiro do mundo, e pode até ir embora que fica – faço oração sagrada em modos afetivos como patuá. Quero pra agora. Pra já. Tudo que me é por direito, nem sempre adquirido, mas por muita vontade. Como diria Belchior, “o tempo andou mexendo com a gente sim... A felicidade é u…

A LAVADEIRA DE ALMAS

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[A Lavadeira de Almas, Camila Morita]
2018 começou lá na ilha na companhia de quem sempre esteve na minha vida desde nosso primeiro encontro. Não sei se você tem muita gente que está presente desde o começo, mas em tempos difíceis para os sonhadores isso é um privilégio! 2018 foi repleto de dureza. Empoderaram a estupidez e a crueldade e nunca uma pré-eleição presidencial foi tão dolorida. Por consequência reorganizamos as relações, as prioridades, quem senta ao redor da mesa com leveza, quem não se incomoda com a sua felicidade, quem está junto na prática, no cotidiano - não sei como foi com você, mas esse processo também é dolorido, ainda que necessário para que haja alguma felicidade. Daí teve Radiohead depois de nove anos - mais um privilégio ter estado nos dois shows - e Buena Vista Social Club junto com a minha irmã - e insisto dizer que todo mundo deveria um dia dançar ao som de Buena Vista Social Club, curvar-se à presença da Omara Portuondo e não esquecer que a gente aqui é l…

40th

O melhor de mim está nas páginas do De Analgésicos & Opioides que hoje, no meu réveillon pessoal, ganha sua versão impressa. A data é proposital, é de todo [auto]afeto e de um pouco de coragem. Porque os sentimentos são todos meus, mas os pronomes não. Porque os capítulos são de quem quiser, embora possam ser confundidos com alguma biografia não autorizada. Porque passei a vida toda lendo gente incrível e escrevendo "solo" entre colchetes. Mas a vida toda até aqui não é a vida toda de fato, então tenho aprendido a escrever junto, a declamar em alto e bom som o que parece verso livre, a fingir que a timidez não existe na hora de expor o que era só coisa do lado de dentro, e que depois de um jazz rasgado deve-se colocar um Alceu Valença para tocar na sala de estar, afinal, a vida - seja ela antes ou depois de entender as coisas - requer um dengo. 
E já que acabei de chegar numa versão de mim em que as pessoas parecem saber das coisas, procurei abrigo em quem já chegou e não…

MACHUCADOS

Era uma vez um amontoado de equívocos. Todos levados a sério demais. Doloridos. Comprimidos em cavidade torácica. Num estica e solta entre glote e nó. Era uma vez um menino de trinta e tantos anos preso na própria angústia que se fez grandeza meio a tanta pequenez. Era uma vez uma vida cheia de absurdos descontrolados em uma fantasia de mau gosto. Todos terminados em sopros, tarjas e engasgos.

COMO NUM MUSICAL DOS ANOS 30

Ele já não cabia mais no que era lembrança. Apareceu, vinte anos depois com tons grisalhos e costas largas, como se nunca tivesse ido embora e deixado o amor que sentia do lado fora. Sussurrou que precisava continuar, mas que agora do lado de dentro dela. Podia até ser numa película de alguns milímetros desde que ela soubesse dizer ‘eu te amo’ em corpo e gosto presentes.