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45th

Filme. Livro. Plateia. Aquele processo descabido de fim. Aquela vontade de ficar porque sim. Os baldinhos de café entre doses geladas de água com gás. A ponte aérea para saciar vontade. Aquele refrão que toca no momento em que gente está a poucos centímetros de distância. Aquela cantiga de maldizer para não perder o réu primário. Aquele silêncio prolongado de quem escuta, guarda e abraça. Aquele discurso que deixaria Fidel [o Castro] cansado. A moça polida da Alice Ruiz que, vez ou outra, leva uma vida lascada. Aquela que sempre atravessa a rua para orgulho da Virginia Woolf [e para quem está do outro lado da calçada]. A que prefere as exceções, o ridículo de escrever poemas e os aniversários não marcados para celebrá-los todos os dias como Wislawa Szymborska. O fluxo arterial que pulsa medos, satisfações e vigília. A que, na vida, se despe existencialista como Beauvoir.  Lugar de alguns alguéns. Um easter eggs cravejado-precioso para uns e areia movediça para outros. Aquela que vê pal

NINGUÉM É POR ACASO

A vida, muitas vezes, é caótica, nada coerente, duvida da gente e do que a gente sente. A vida pode ser um frame surrealista dependendo de como a gente conta, vê e transborda. A vida cabe numa dança feliz, ainda que tudo seja dúvida, com David Bowie solando pra você numa das cenas mais lindas do filme "Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades, de Alejandro González Iñárritu". Uma dança feliz também me fez morada numa sala com nossas músicas numa casa que foi nossa por uns dias com o amor do dia que poderia ser de uma vida e que, no final das contas, foi o amor de uma temporada. Ainda assim, enquanto se existe no outro, somos equações límbicas baseadas em paixões clássicas como se Nick Cave quebrasse uma quarta parede só para cantar " There she goes, my beautiful world" nos créditos finais. De lá do confinamento da pandemia até aqui demos alguns passos além do sobreviver. Voltamos a frequentar além dos nossos cômodos. Voltamos a ver nossas pessoas. Voltamos a conhe

44th

A [minha] fé ecumênica e nem sempre divina do ano passado deu um jeito de abençoar alguns dos meus delírios num improviso que só o jazz sabe fazer com elegância. E fez. Aos trancos. Aos barrancos. Aos berros. Aos sussurros. Num absurdo que nem sei. Num amontoado de emoção que sinto na pele que arrepia até depois que passou, que acabou, que se fez fim pra começar outro improviso ainda mais cheio de propósito e instinto. Acontece que é um tanto difícil assumir compromissos e não falhar mesmo planejando cada acorde, cada passo, cada conversa com afeto e cuidado. É como fazer uma playlist chamada “como destruir a vida em alguns riffs” e colocar aquela música que sempre fez parte da felicidade num lugar que não deveria. Não era para ser. Estraga tudo. Talvez por isso a gente se decepciona tanto com as frágeis promessas das pessoas. A gente acredita, sabe. A gente é fiel quando aquela música que trazia leveza passa a machucar e a muda de lugar. Já as pessoas não. Elas vão te foder enquanto s

MAIS UM POUCO DE MUITO

Mais um ano pandêmico. Mais um ano morando numa bolha quentinha, em condições ideais de temperatura e baldinhos de café contrapondo a condições caóticas de pressão emocional e [des]governança política. Ouvindo a versão mais linda do deus Bob Dylan na voz de Gal Costa e Jorge Drexler em repetição porque a versão folk te implorando " Vá, ande, junte tudo que puder levar " é incentivo-abraço-delicadeza.  2021 passou correndo, veloz, atroz. É bom estar viva. É, também, dolorido quando as pessoas deixam de existir e você fica ali, como testemunha. Sempre verbalizei que gostaria de saber quando fosse morrer para poder me despedir da vida do meu jeito e a Ingrid teve essa possibilidade e fez isso com uma delicadeza difícil de ilustrar. Foram seis meses compartilhando seus dias. Suas danças na sala com o irmão e com o pai. A última live no hospital para que todos os seus, em todos os lugares do mundo, pudessem dizer o quanto a amavam e eram amados por ela. Se existe coisa mais bonita

43th

As dores do corpo já incomodam tanto quanto as dores dos [meus] olhares, mas parece que se tudo der certo a gente vai viver muito, bem mais do que as tais das expectativas, geografia e linhas imaginárias que definem espaço e tempo. É bem verdade que há condições que nem sempre estão ao total alcance, mas todas elas dependem de participação, coragem e livramentos: Se o [des]governo se livrar dos colchetes e do fã clube. Se o coração ganhar sobrevidas a cada pequena morte. Se o alcance das breves belas emoções tiver a grandiosidade que merece e não se curve a qualquer liquidez megalomaníaca. Mas também é verdade que se prolonga a vida amando muito mais em perímetro diminuto, deixando pra lá o que não vale o [meu] tempo e berrando em denúncias oficiais [e protocolares] aquilo que a voz paciente não foi capaz de fazer entender. E nessa segunda temporada confinada por livre e espontânea consciência que é preciso estar para continuar, faço um feat platônico com o Jorge Drexler abusando num a

Emoções fora de época

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Sobre o ano que terminou no carnaval e nem pediu desculpas? Tenho muito a dizer. Fiz até playlist . Parece que nada aconteceu, mas não é bem assim. Na verdade a gente tem uma mania esquisita de achar que só porque as coisas não saíram da forma como queríamos, elas não existiram. Mas elas existiram: a contragosto, em versões não programadas, em versões adaptadas, em delicadezas necessárias. Eu até esperava [com pesar, mas com entendimento social e político] que passaríamos por uma guerra mundial, mas nunca cogitei uma pandemia. E passei a contar os dias confinada em faixas musicais numa playlist chamada “ Confinamento ”: uma canção por dia. E durante 218 dias contando a partir do dia 16 de março só vi a cara da rua nas idas quinzenais ao mercado e farmácia. Nenhum abraço, nenhuma visita, nada além do clã de dentro, do gato e de chamadas de vídeo tentando preencher o espaço que fica quando a gente não toca, não divide, não brinda.  Nesses dias todos comemoramos aniversários entre telas

42th

“Já quis muito mudar o mundo, agora quero que o mundo não mude quem eu sou” é uma das poucas verdades que faço oração, mantra, desejo, guia ou seja lá o que for que norteia palavra lançada, escolhas e partidos. Porque se demora muito para entender o valor disso. A versão 42 chega no [meu] 125º dia de quarentena que parece um parque de diversões sem luzes, sem gente, sem diversão enquanto a escala Richter emocional celebra o estado mínimo das coisas íntimas que muitas vezes confunde alívio com alegria. Há uma linha do Equador todo dia para lembrar que limite é uma questão teoricamente moral ainda que seja praticada com o lado passional do arco venoso. Ainda assim há planos breves de felicidade como sempre houve por aqui. E eles têm acontecido ainda que pareçam tão meridianos num passinho que vai e vem como numa canção que abraça. Quem sempre aqui esteve continua prolongando temporada e no final das contas é o que [para mim] importa.