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47th

Brincar de “faz-de-conta” na versão adulta não é tão seguro como ser um cronópio de Cortázar. A gente perde a linha, arrisca abismos, irrita as famas [sempre tão metódicas], confunde, mesmo jurando uma certeza quase infantil, o que é real do que é fantasia. Daí no atropelo de uma vingança emocionada, a gente ama um amor que nem sabia que podia e tem de traçar um plano de fuga que nem existe, mas precisa [ser inventado]. Na minha versão de vizinhos de prateleira da minha estante de estar, a Socorro Acioli, quando disse que “todos nós somos a invenção de alguém” [no livro Oração para desaparecer] fez Cortázar sorrir como quem reconhece quem entendeu o jogo, fez dele instrução e ao invés de adjetivos megalomaníacos, usou cavalos-marinhos. Quando li, também sorri, mas foi um sorriso demorado, praticamente, paralisado, de quem ainda não sabe jogar o jogo, mas já tatuou ficção para que fosse, todo dia, realidade. Aliás, tenho me sentido num clube quase cativo de quem faz da escrita o que bem...

RUM COM FRAMBOESA

Tem ano que [me] confunde. Ora parece que faz tempo, ora que foi logo agora. Tem ano que parece aquelas colagens que a gente olha de longe e acha bonito e de perto não entende [quase] nada. Tem ano que parece que acabou e emendou em algum festival. No meu teve carnaval com uns rocks na casa de jazz. Depois um carnaval com jazz na casa de samba. E prolongamos uma ressaca de carnaval com o que há de mais carioca em éssepê. O Guy lançou o videoclipe de "Ninguém te espera" no comecinho do ano [a canção que me fez endoidecer no ano que já tinha passado], me convidou para escrever a orelha do seu livro de poemas "Dentes & Nomes (e os micropoemas)" e juntou nesse livro nosso esquema de pirâmide que deu muito certo [amizade tem dessas coisas bonitas!]. Teve blues que chegou num pacote repetido do natal passado, que virou quase aniversário [e continuo achando lindo quem contribui com a trilha sonora da minha vida em caixas de antigamente]. "Only God Was Above Us...

46th

  "As emoções são tudo que temos" - disse Paolo Sorrentino em 2015 através do seu personagem Fred [lindamente interpretado por Michael Caine] em "Youth". E desde então tenho repetido isso [com os devidos créditos] em toda conversa, em cada desabafo, em todo momento que cabe - já que sou uma emocionada de carteirinha vitalícia, dona dos dramas astrais, de choro com soluço duplo, de riso que emenda gargalhada, de raivas duradouras, de amores que ficam e das partidas doloridas.  As emoções moldam a gente. Moldam até a minha biblioteca que é organizada por [des]ordem sentimental. Ela tem mais escritoras do que escritores bem antes de se tornar pauta "que devemos ler mais mulheres". Lá, Simone [a de Beauvoir] fez uma vila com Clarice [Lispector], Ana Cristina César, Hilda Hist, Chimamanda Ngozi Adichie, Djamila Ribeiro, Virginia Woolf e Marjane Satrapi - fico imaginando elas todas amigas, num café que emenda uns bons drinks. E a minha coleção de Fernanda Young...

BALLET CÓSMICO

Em 2023 voltei a tantos lugares. Voltei para alguns abraços. Voltei a ter algumas raivas. Voltei a conhecer novas cidades, e, numa delas, pelo chão e poesia que Eduardo Galeano palavreou por tantos capítulos e abraços da américa que é tão nossa e latina. Colônia del Sacramento  parece uma "pequena Paraty", mescla com Ouro Preto e a origem portuguesa tem a brasilidade que nos apetece - é lugar de posse, [des]conquista e caos entre Estanha e Portugal. Nem Tratado de Tordesilhas deu conta disso! “La Calle de los Suspiros" reflete os contos que beiram a cidade e suas histórias, pois uns contam que é a rua onde os condenados à morte passavam para serem fuzilados à beira do rio, outros que era a rua dos bordeis e os suspiros vinham dos soldados que ali passavam e os fuxicos de quem observava o movimento. No alto do seu farol, das duas: as duas.      Voltei a comemorar aniversário. De cores e sabores andinos. De lhamices para todos os gostos e registros. Da piada intern...

45th

Filme. Livro. Plateia. Aquele processo descabido de fim. Aquela vontade de ficar porque sim. Os baldinhos de café entre doses geladas de água com gás. A ponte aérea para saciar vontade. Aquele refrão que toca no momento em que gente está a poucos centímetros de distância. Aquela cantiga de maldizer para não perder o réu primário. Aquele silêncio prolongado de quem escuta, guarda e abraça. Aquele discurso que deixaria Fidel [o Castro] cansado. A moça polida da Alice Ruiz que, vez ou outra, leva uma vida lascada. Aquela que sempre atravessa a rua para orgulho da Virginia Woolf [e para quem está do outro lado da calçada]. A que prefere as exceções, o ridículo de escrever poemas e os aniversários não marcados para celebrá-los todos os dias como Wislawa Szymborska. O fluxo arterial que pulsa medos, satisfações e vigília. A que, na vida, se despe existencialista como Beauvoir.  Lugar de alguns alguéns. Um easter eggs cravejado-precioso para uns e areia movediça para outros. Aquela q...

NINGUÉM É POR ACASO

A vida, muitas vezes, é caótica, nada coerente, duvida da gente e do que a gente sente. A vida pode ser um frame surrealista dependendo de como a gente conta, vê e transborda. A vida cabe numa dança feliz, ainda que tudo seja dúvida, com David Bowie solando pra você numa das cenas mais lindas do filme "Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades, de Alejandro González Iñárritu". Uma dança feliz também me fez morada numa sala com nossas músicas numa casa que foi nossa por uns dias com o amor do dia que poderia ser de uma vida e que, no final das contas, foi o amor de uma temporada. Ainda assim, enquanto se existe no outro, somos equações límbicas baseadas em paixões clássicas como se Nick Cave quebrasse uma quarta parede só para cantar " There she goes, my beautiful world" nos créditos finais. De lá do confinamento da pandemia até aqui demos alguns passos além do sobreviver. Voltamos a frequentar além dos nossos cômodos. Voltamos a ver nossas pessoas. Voltamos a conhe...

44th

A [minha] fé ecumênica e nem sempre divina do ano passado deu um jeito de abençoar alguns dos meus delírios num improviso que só o jazz sabe fazer com elegância. E fez. Aos trancos. Aos barrancos. Aos berros. Aos sussurros. Num absurdo que nem sei. Num amontoado de emoção que sinto na pele que arrepia até depois que passou, que acabou, que se fez fim pra começar outro improviso ainda mais cheio de propósito e instinto. Acontece que é um tanto difícil assumir compromissos e não falhar mesmo planejando cada acorde, cada passo, cada conversa com afeto e cuidado. É como fazer uma playlist chamada “como destruir a vida em alguns riffs” e colocar aquela música que sempre fez parte da felicidade num lugar que não deveria. Não era para ser. Estraga tudo. Talvez por isso a gente se decepciona tanto com as frágeis promessas das pessoas. A gente acredita, sabe. A gente é fiel quando aquela música que trazia leveza passa a machucar e a muda de lugar. Já as pessoas não. Elas vão te foder enquan...