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40th

O melhor de mim está nas páginas do De Analgésicos & Opioides que hoje, no meu réveillon pessoal, ganha sua versão impressa. A data é proposital, é de todo [auto]afeto e de um pouco de coragem. Porque os sentimentos são todos meus, mas os pronomes não. Porque os capítulos são de quem quiser, embora possam ser confundidos com alguma biografia não autorizada. Porque passei a vida toda lendo gente incrível e escrevendo "solo" entre colchetes. Mas a vida toda até aqui não é a vida toda de fato, então tenho aprendido a escrever junto, a declamar em alto e bom som o que parece verso livre, a fingir que a timidez não existe na hora de expor o que era só coisa do lado de dentro, e que depois de um jazz rasgado deve-se colocar um Alceu Valença para tocar na sala de estar, afinal, a vida - seja ela antes ou depois de entender as coisas - requer um dengo. 
E já que acabei de chegar numa versão de mim em que as pessoas parecem saber das coisas, procurei abrigo em quem já chegou e não…

MACHUCADOS

Era uma vez um amontoado de equívocos. Todos levados a sério demais. Doloridos. Comprimidos em cavidade torácica. Num estica e solta entre glote e nó. Era uma vez um menino de trinta e tantos anos preso na própria angústia que se fez grandeza meio a tanta pequenez. Era uma vez uma vida cheia de absurdos descontrolados em uma fantasia de mau gosto. Todos terminados em sopros, tarjas e engasgos.

COMO NUM MUSICAL DOS ANOS 30

Ele já não cabia mais no que era lembrança. Apareceu, vinte anos depois com tons grisalhos e costas largas, como se nunca tivesse ido embora e deixado o amor que sentia do lado fora. Sussurrou que precisava continuar, mas que agora do lado de dentro dela. Podia até ser numa película de alguns milímetros desde que ela soubesse dizer ‘eu te amo’ em corpo e gosto presentes.

FIRULAS

Quando te faço literatura retiro tudo aquilo que te faria fim e transbordo. Cometo exageros que você aceita só porque estão na horizontal. Aos pés da cama. De ponta cabeça. Em lisura poética. Eu te julgo incapaz e você sorri só porque acha que é ficção. Sufoco palavra em alguma má educação e você ri porque acha que é graça. Minto figura de linguagem e você acredita que é tudo questão de estética. E resta-me, no decorrer dos parágrafos e na advertência das pontuações, aceitar que continuamos despreparados sobre nós.

DOS AFETOS TODOS [OS NOSSOS E OS DOS OUTROS]

"Os afetos. Ter tempo para cultivar os afetos..." [disse Pepe Mujica numa dessas entrevistas que a gente precisa rever com frequência]

2017 foi um ano cheio de afeto e um dos lugares-pertencimentos mais bonitos será sempre aquele mar intenso de Recife, que passos à direita se fazia Tamandaré e passos à esquerda Carneiros. Lugar que contém histórias minhas por direito, mas não por herança - um tipo de genética contruída por desavenças provençais e amores românticos, por fugas de cordel e encontros compadecidos - pois a história da gente geralmente começa lá longe, onde nem sempre se esteve, em gente que nem sempre existe em dias úteis, e que num olhar mais cuidadoso, faz todo sentido. Os afetos também se fizeram música, num show lindo da Maria Gadu, num espetáculo que mais parecia uma festa do Midnight Oil, naquele tributo foda em homenagem ao Belchior. Os afetos também têm nome, sobrenome, tem sabor de cerveja, café, cabe num abraço longo, quentinho, naquela conversa que não t…

AÇÃO DE GRAÇAS

Quero agradecer tudo que somos. Tudo que temos. Tudo que, juntos, fizemos. Quero agradecer por não desistir mesmo que tenha tido vontade, e por não ter deixado que eu desistisse quando tudo parecia insuficiente e pela metade. Quero agradecer por ter chegado até aqui. Olho tudo ao redor e acho que realmente somos bons nisso. E se tiver outra vida quero esbarrar em você de novo só para poder continuar em você. [E com você].

QUANDO SOUBE QUE TE PERDI

A vida também é um triste perder mesmo que não se queira ganhar. É aquela sensação estranha de fragilidade quando já te deram o selo [equivocado] de fortaleza. Do choro de medo mesmo quando você sabe que consegue resolver qualquer coisa que está por vir. Do turbilhão de surpresas boas que também são ruins. É dor que só machuca quando a gente sabe da onde ela veio. É laudo assinado para ficar registrado. É susto que passa e afaga num colo macio fazendo a gente esquecer que daqui a pouco vem outro.