sexta-feira, 9 de setembro de 2016

SOBRAS

Sobra tudo: tempo, silêncio, pronome obsessivo, tensão subordinada e desmedida. Sobra um tanto da gente que a gente não diz que a vida fica assim: com orações sem fé e excesso de incompletudes. 

terça-feira, 19 de julho de 2016

38th

Sou ritual. Uma imensidão deles que inventei a cada temporada. Um hábito necessário de prolongar o que sinto em cada pegada na areia, a cada quentura do asfalto, a cada tato que me pede calma de uma calma que não tenho. Hoje meu ritual é de busca. Do que eu vou ser quando crescer além do que é agora. Do que eu vou querer além dos quereres que se perdem de mim por descuido ou preguiça. Para o lugar que [me] é família como forma de continuar e ganhar, ainda que haja algum descuido, ainda que sofra de alguma preguiça.

Talvez depois disso eu vá morar em algum lugar do velho mundo ou vire uma sulamericana de vivência e presença. Talvez eu case, tenha filhos, ou me aliste para o Médicos Sem Fronteiras e passe uma temporada mergulhada em um caos que [me] precisa. Talvez eu não volte e fique por lá, não para sempre porque para sempre é muito tempo, mas por tempo suficiente para entender que raiz é onde a gente está. Talvez eu volte rápido e peço ao rapaz que desafia o meu bom senso em namoro. Talvez eu fique para prolongar o afeto mais recente e resolva pagar pra ver qualéqueé do que parece poder ser um bom amor. Talvez eu pegue aquela ideia engavetada e a transforme em alguma grande coisa. Ainda não sei qual talvez que eu vá escolher, mas todos eles me parecem algo bom de viver. Porque é escolha. Porque me dá vontade. Porque é de todo prazer. Porque tem bem-querer.

E antes de continuar o que é “daqui pra frente” preciso dizer que escolher ficar por aqui hoje e marcar passagem só de ida para algum lugar é na verdade um desses exercícios para chegar mais perto das histórias que não são minhas por direito, mas são por herança – um tipo de genética construída por desavenças provençais e amores românticos, por fugas de cordel e encontros compadecidos. E preciso ir acompanhada por uma trilha sonora em língua toda portuguesa, brasileira, de sotaque que arrasta pericárdio. Como diria Bethânia, na carta [mais honesta] de amor, que leio e escuto pontualmente como oração, descobri que “sou como a haste fina: qualquer brisa verga, nenhuma espada corta.” – Acho que é isso que me faz querer ir para, quem sabe, voltar [e fazer, ser, receber...] melhor. 

domingo, 10 de julho de 2016

TEM OLHAR QUE NÃO PRECISA DE PRESSA

Daí a gente se apaixona. Não só uma, mas duas, três, diversas vezes. Ama comprido, se desfaz em calafrios, estraga tudo como se fosse a primeira vez com a competência de quem já fez isso antes. Tem corpo que até sobra afeto. Tem lugar que até parece casa. E a gente se acostuma a terminar. Em continuar em outra história. Em partir para não mais voltar. Até que um dia a gente distrai olhar por muito mais tempo e quando se dá conta é importante. E dá vontade de ficar.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

DOS TEUS GIRASSOIS


A gente nunca falou sobre Van Gogh, mas os girassóis sempre rodaram em torno das suas palavras, da sua maneira de ouvir música fazendo dela oração, do seu sorriso fácil, da sua piada pronta, do brilho da sua presença onde estivesse. E justo eu, que sempre gostei das margaridas, do bem-me-quer, do cheiro da sua versão camomila, do ritual de noite e dia, fui logo tatuar os seus girassóis. Talvez uma forma de continuar os nossos laços, de fazer do sol ciranda e flor no que [me] é derme. Uma desculpa nada esfarrapada para te contar para os outros, já que cada inflorescência que se espalha entre minhas veias e artérias são capítulos seus.