domingo, 26 de fevereiro de 2017

GLITTER

Vai, atropela alegoria. Harmoniza sua carne com a minha já que é carnaval. Perca o compasso do bloco para seguir samba que nem tem enredo. Vai na ginga, na malícia, no baile, sem máscara, emaranhando em nós toda cor de serpentina. Está chovendo purpurina, mas guardei glitter para fazer tempestade na quarta de cinzas.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

[ME] DEMORA

Prorrogue o alongamento dos seus braços nas minhas pernas. Pode atrasar em mim. [Me] acomoda. Fique mais um pouco. [Me] demora para que eu possa te fazer vértice. [Me] encontra aqui em mim.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

BASEADO EM DORES REAIS

Dedinho do pé na quina de um móvel qualquer. Braço quebrado. Acidente de carro. Gente que vai embora sem explicar. Gente que fica só para atrapalhar. Palavra mal dita. Afeto escondido. Você, que conjuga as nossas pessoas fora de todos os tempos.

domingo, 1 de janeiro de 2017

FOGOS E ARTIFÍCIOS

2016 me deu de presente alguns pedidos de anos passados: Começou com aquele folk-desejo do Mumford and Sons no Lollapalooza [e por mais que junto tenha tido o indie do Tame Impala, a delicadeza do Of Monsters and Men, a euforia do Eminem e a dançante Marina and The Diamonds, eu estava ali pelo banjo, bandolim e violão do Mumford, pela alegria que é pular feito criança em “I Will Wait” e pra fazer daquele show um concerto particular – sim, foi lindamente pessoal!]. Daí pra fazer valer um ano difícil [a gente vai lembrar de 2016 por tanta injustiça que às vezes dá impressão que não sairemos dele tão facilmente] veio Wilco e a sensação que tenho é que ali estávamos num reencontro de almas. Por onde se olhava se via abraços por todos os lados e sorrisos por todos os cantos. Talvez o Wilco tenha juntado um monte de gente que não se encontrava há tempos e fez isso da maneira mais bonita. “Impossible Germany” e seu solo majestoso estiveram para palco assim como “Jesus, etc” ficou por conta da plateia.No final das contas acho que solos de guitarra e coro a plenos pulmões foram uma maneira de agradecer por estarmos todos lá. E como trilha sonora de vida é coisa dos diabos, 2016 terminou com o tio Ozzy e a última turnê do BlackSabbath, com pilequinho, com chuva, com satisfação.

2016 também foi ano de golpes. 2016 nos fez despedir do Bowie e do Cohen. 2016 foi ano de amores. Alguns efêmeros demais. Outros que certamente se repetirão em 2017 porque o que é bom precisa continuar, voltar casas, preencher poros  – para a satisfação da pele e desespero da nossa falta de destreza em sentir. 2016 foi grosseiro. 2016 foi egoísta. 2016 me fez acumular milhas e estradas de bons e importantes trabalhos. 2016 repetiu as festas que amanheceram domingos no Casarão. 2016 desenhei na derme as flores do meu pai. 2016 foi o ano das laudas por sentimento cúbico – e quanta coisa bonita a gente pode fazer do que nem sempre carrega traços de delicadeza. 

E da [minha] lista nada modesta de vontades e lugares para 2017, quero voltar ao velho mundo, quero palco [pode ser karaokê sujo cantando Madonna sem culpa para o delírio dos amigos e aplausos duvidosos dos desconhecidos], quero ponte aérea para se fazer chegada, cantinho do sofá fazendo cafuné, áudio em pleno fim da tarde dizendo aos “berros” pra vir logo ao encontro não marcado, declamando as letras do Caetano, dançando no meio da sala de estar... 2017: seja de todos os prazeres e nos receba com amor, pois por aqui haverá fogos e artifícios.

sábado, 17 de dezembro de 2016

LEMBRANÇA LEVE QUE OPINA A TARDE

[Jordan Duailibe é dono de uma literatura que merece ser lida aos quatros cantos desse mundo. Tenho a sorte e o privilégio de poder fazer dos nossos dias e conversas inspirações literárias e delicadeza. Hoje, aqui no De Analgésicos & Opioides, o capítulo é dele. 
Como ele mesmo define:"um pequeno curta com passagens regionais"]

Espreitava-se levemente sobre o cedro da varanda, onde os cotovelos pousavam bem vistos e confortáveis, perto das pequenas plantas em formação, ramificações que se cresciam em pequenos círculos verdes, nos vasos dourados que chispavam luz do sol, ali bebericava a pequena xícara branca e tragava um cigarro rapidamente, relembrando certas coisas que guardava a mente.
Iria viajar e nem havia arrumado a mala, na cama ampla, roupas dobradas com cuidado, alguns perfumes, um pequeno guia de bolso e um tinteiro onde desenvolvia seus versos.

Quinze anos que não revia o seu pai, num compromisso árduo de trabalho e cansaço, o prolongamento de tempo se construiu normalmente à margem dos ponteiros.

Ainda conseguia perceber o olor campestre de mato depois de uma tarde de chuva, a rede e o rangido trazido da escápula enferrujada, o bolo de fubá de Inhazinha queimando leve no fogão à lenha, perto de tantos retratos em preto e branco ganhando acomodações na parede, o Cristo no madeiro feito com muito cuidado, guardando à memória da mãe, no quarto do grande sítio.

Quando criança ia ter com cavalos, até o dia em que um cavalo disparara sobre a ribanceira, e lhe deixara como lembrança incômoda, uma perna engessada por seis meses.
Quantas árvores frondosas dividindo espaços inúmeros, sobre o terreno uniforme, brotando frutos maduros nos galhos, sobre o regime de balanços administrados pelos zéfiros.

De seu pai ainda lembrava as botas pretas, a voz brincalhona e o chapéu torto cobrando o café para Inhazinha que acertava o ponto costumeiro.

Nada diferente, nada refletia ou que impusesse uma simbologia diferenciada de famílias, poderia ser qualquer outra, se não fosse aquele algo escrito em letras garrafais no coração, saudade.

Não conheceu muito do campo, e nem viu a cana no moinho ganhar garrafas e serem vendidas no centro velho da cidade, não lustrou as botas observando o sol findo pelos cercados de arame.

Chegou um dia em que até mesmo pasta de dentes não se combinava, e entendeu sua dura realidade, tinha novos rumos a se ganhar pelos olhares e se permitiu a arrumar as malas, coisa que ainda treina, enquanto o café lhe vinga lembranças e o cigarro lhe endereça uma certa paz presencial.

Tirou do bolso da camisa salmão, duas cartas escritas em linhas tortuosas, em esferográfica preta, contando o causo de suas histórias, e recomeço de terras, do tempo de seca e chuva, do segundo casamento e novas plantações ao norte, de um final eu te amo, e venha comer o bolo de macaxeira, provar um inhame e frango com quiabo no varandão aberto do sítio, sentia-se compenetrado, desfalecido, absorto, amassou uma das cartas que atingiu a piscina do prédio em ondas circuncêntricas, iria voltar a selecionar peças e encher o fundo de fotos, seguiria para o nordeste amanhã sem atrasos como se deu por tantos anos.