domingo, 15 de abril de 2018

MACHUCADOS


Era uma vez um amontoado de equívocos. Todos levados a sério demais. Doloridos. Comprimidos em cavidade torácica. Num estica e solta entre glote e nó. Era uma vez um menino de trinta e tantos anos preso na própria angústia que se fez grandeza meio a tanta pequenez. Era uma vez uma vida cheia de absurdos descontrolados em uma fantasia de mau gosto. Todos terminados em sopros, tarjas e engasgos.

quinta-feira, 8 de março de 2018

COMO NUM MUSICAL DOS ANOS 30


Ele já não cabia mais no que era lembrança. Apareceu, vinte anos depois com tons grisalhos e costas largas, como se nunca tivesse ido embora e deixado o amor que sentia do lado fora. Sussurrou que precisava continuar, mas que agora do lado de dentro dela. Podia até ser numa película de alguns milímetros desde que ela soubesse dizer ‘eu te amo’ em corpo e gosto presentes.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

FIRULAS

Quando te faço literatura retiro tudo aquilo que te faria fim e transbordo. Cometo exageros que você aceita só porque estão na horizontal. Aos pés da cama. De ponta cabeça. Em lisura poética. Eu te julgo incapaz e você sorri só porque acha que é ficção. Sufoco palavra em alguma má educação e você ri porque acha que é graça. Minto figura de linguagem e você acredita que é tudo questão de estética. E resta-me, no decorrer dos parágrafos e na advertência das pontuações, aceitar que continuamos despreparados sobre nós.   

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

DOS AFETOS TODOS [OS NOSSOS E OS DOS OUTROS]

"Os afetos.
Ter tempo para cultivar os afetos..." 
[disse Pepe Mujica numa dessas entrevistas que a gente precisa rever com frequência]


2017 foi um ano cheio de afeto e um dos lugares-pertencimentos mais bonitos será sempre aquele mar intenso de Recife, que passos à direita se fazia Tamandaré e passos à esquerda Carneiros. Lugar que contém histórias minhas por direito, mas não por herança - um tipo de genética contruída por desavenças provençais e amores românticos, por fugas de cordel e encontros compadecidos - pois a história da gente geralmente começa lá longe, onde nem sempre se esteve, em gente que nem sempre existe em dias úteis, e que num olhar mais cuidadoso, faz todo sentido. Os afetos também se fizeram música, num show lindo da Maria Gadu, num espetáculo que mais parecia uma festa do Midnight Oil, naquele tributo foda em homenagem ao Belchior. Os afetos também têm nome, sobrenome, tem sabor de cerveja, café, cabe num abraço longo, quentinho, naquela conversa que não termina e que atravessa a madrugada - tenho sorte por ter amigos que são tudo isso, sempre presentes, em dias comuns, sem frescuras, sem protolocos, como deve ser! Houve afeto cheio de outono, com muito drinkability, em idioma complicado no meio dos Alpes da lindíssima Baviera, afinal, voltar ao velho mundo está sempre nos planos. E aquele afeto da vida toda, que mora onde quer que a gente esteja, se encontra em qualquer lugar, porque o importante é estar junto [e desta vez esteve presente no mar de todo tom de azul de Laguna]. 

Dos desafetos, uma lista também longa: a gente ainda é uma maioria representada por uma minoria política. [Injusto. Injusto. Injusto!]. A gente ainda esbarra em homens inseguros e vazios que ameaçam vidas e valores. O mundo corporativo ainda é tão machista quanto as piadas dentro das casas. A gente ainda acha normal tanta coisa que não deveria ser. Mas o Pepe [o Mujica] parece que insiste ao pé do ouvido: "ter tempo para cultivar os afetos..." É disso que a gente precisa!

E os quereres para 2018 continuam sendo muitos. Eles percorrem o largo e colorido espectro das segundas-feiras cheias de calma, das semanas repletas de bons trabalhos, cafés e happy hour a toda hora, aos sábados ébrios e musicais. Eles compreendem os lugares mais distantes. Eles desejam repetir aquele amor que a gente percebe no meio do trânsito, numa conversa aparentemente boba, num dia de semana qualquer. Eles planejam sessões incontáveis de autógrafos em não-biografia dos sentimentos que a gente insiste em sentir. Ele quer da gente coragem, como Guimarães Rosa, em sua literatura tão exata.

2018 quer muito e talvez só não seja maior do que os agradecimentos, porque eles são tantos que tenho perdido a conta... 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

AÇÃO DE GRAÇAS

Quero agradecer tudo que somos. Tudo que temos. Tudo que, juntos, fizemos. Quero agradecer por não desistir mesmo que tenha tido vontade, e por não ter deixado que eu desistisse quando tudo parecia insuficiente e pela metade. Quero agradecer por ter chegado até aqui. Olho tudo ao redor e acho que realmente somos bons nisso. E se tiver outra vida quero esbarrar em você de novo só para poder continuar em você. [E com você].