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ESTUPIDEZ

Não, você não é intenso. Você é superfície. Planície de grande extensão, mas sem grande profundidade. Chão parado que gira em torno de si mesmo jurando movimento. Você também não tem boas intenções. Suas frases decoradas de livros de “como viver bem” não cabem nos seus braços que afastam, nos seus olhos que, inutilmente, competem, tão menos na vida que finge levar. Você [ainda] confunde bravura com braveza e se faz risível. Você até pede desculpas, mas repete culpa com a exatidão de quem sabe que pode ser um grande desastre. Você é raso e nem por isso é inofensivo, aliás, é no raso que se tropeça e as mortes imbecis acontecem justamente onde se dá pé.

LADAINHA

Eu te contei em diversos pedaços de orações. Todas elas sem santidade alguma. Sem compaixão. Com alguma fé. Com muito desejo. Em alguns rabiscos hostis. Com cuidado precário. Com vontade de dar certo. Em profecia duvidosa. Com amor. Implorando cura. Adiando fim.

SOBRAS

Sobra tudo: tempo, silêncio, pronome obsessivo, tensão subordinada e desmedida. Sobra um tanto da gente que a gente não diz que a vida fica assim: com orações sem fé e excesso de incompletudes. 

SOBRE O ACENO DESCONTROLADO DAS MINHAS PALAVRAS ESCRITAS NA PERPENDICULAR DA SUA PELVIS

[Me] empresta você?!  

38th

Sou ritual. Uma imensidão deles que inventei a cada temporada. Um hábito necessário de prolongar o que sinto em cada pegada na areia, a cada quentura do asfalto, a cada tato que me pede calma de uma calma que não tenho. Hoje meu ritual é de busca. Do que eu vou ser quando crescer além do que é agora. Do que eu vou querer além dos quereres que se perdem de mim por descuido ou preguiça. Para o lugar que [me] é família como forma de continuar e ganhar, ainda que haja algum descuido, ainda que sofra de alguma preguiça. Talvez depois disso eu vá morar em algum lugar do velho mundo ou vire uma sulamericana de vivência e presença. Talvez eu case, tenha filhos, ou me aliste para o Médicos Sem Fronteiras e passe uma temporada mergulhada em um caos que [me] precisa. Talvez eu não volte e fique por lá, não para sempre porque para sempre é muito tempo, mas por tempo suficiente para entender que raiz é onde a gente está. Talvez eu volte rápido e peço ao rapaz que desafia o meu bom senso em n...

TEM OLHAR QUE NÃO PRECISA DE PRESSA

Daí a gente se apaixona. Não só uma, mas duas, três, diversas vezes. Ama comprido, se desfaz em calafrios, estraga tudo como se fosse a primeira vez com a competência de quem já fez isso antes. Tem corpo que até sobra afeto. Tem lugar que até parece casa. E a gente se acostuma a terminar. Em continuar em outra história. Em partir para não mais voltar. Até que um dia a gente distrai olhar por muito mais tempo e quando se dá conta é importante. E dá vontade de ficar.

DOS TEUS GIRASSOIS

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A gente nunca falou sobre Van Gogh, mas os girassóis sempre rodaram em torno das suas palavras, da sua maneira de ouvir música fazendo dela oração, do seu sorriso fácil, da sua piada pronta, do brilho da sua presença onde estivesse. E justo eu, que sempre gostei das margaridas, do bem-me-quer, do cheiro da sua versão camomila, do ritual de noite e dia, fui logo tatuar os seus girassóis. Talvez uma forma de continuar os nossos laços, de fazer do sol ciranda e flor no que [me] é derme. Uma desculpa nada esfarrapada para te contar para os outros, já que cada inflorescência que se espalha entre minhas veias e artérias são capítulos seus.