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JÁ NÃO FAZEM MAIS “VOCÊ” COMO ANTIGAMENTE

Você tem confundido fraqueza com franqueza. Você tem antecipado as coisas como se pudesse evitar que elas aconteçam sem a sua permissão. Tem justificado com fins o que não chegaram a começo. Tem tomado espaços demais ocupando de vazios o que antes preenchia com palavra. Você continua bonito. Você ainda fecha os olhos com satisfação enquanto sente o vento passar pelo rosto como fazem os gatos. Você ainda me arranca sorrisos quando se esquece de tratar com dureza o tempo que te faz envelhecer. 

SÃO TODAS COISAS SUAS

Aquele seu assovio que [me] amanhece junto de cada manhã. Aquele entusiasmo fora de propósito e sem explicação. Aquela falta de sutileza em desconsertar quem não é capaz de formular a própria opinião. Aquela facilidade irritante de transformar qualquer diálogo nosso em verso e quase canção. Aquelas migalhas do dia que você junta e faz pedaço de oração. Aquela sua falta de deus que perturba a bondade que os outros enxergam em você, embrulhados em desconfiança. Aquela sua falta de moral ainda que seja dono de bons costumes. Aquela sua maneira esquisita de estar só que nem sempre consegue pedir para acompanhar. São todas coisas suas que perturbam a ansiedade do meu pé ante pé. 

UM POUCO DO QUE É TANTO

Ele era meio divertido. Meio fracassado. Meio bom demais para ser só verdade. Meio fingidor ao fingir que é amor o amor que certamente sente. Meio debochado sem perder a ternura. Também era meio bonito, com um jeito meio bobo de articular o que já era bom e mesmo assim insistir em alguma edição. Ele era uma versão meio Sgt. Pepper num solo prolongado de John. E gostava de repetir isso meio a um trago e outro, entre a excitação e o entorpecer.

TUDO PODE SER MAIS SIMPLES

É só dizer. Com calma para que eu entenda cada sílaba, mesmo que nenhuma seja de toda tônica. Com doçura para que não me falte o sorriso. Com licenças para que a minha vontade também tenha a sua permissão. Com tato para que prolongue o que já é excitação.

MEIO ASSIM

Eu tenho pressa. Uma pressa que me atrasa. Que me paralisa. Que me faz demorar em algum lugar que é continuação, mas ainda não é chegada. Que me faz adiar o que deveria ter sido, há algum tempo, partida. 

NUNCA ME ESQUEÇO DO QUE SINTO

Nunca me esqueço do que sinto. Mesmo quando deveria. Ainda que não precisasse ser lembrança. Nem quando é música, verso ou poesia-tentativa. Tão menos quando, sem querer, alguém me salva de mim mesma. 2015, na intimidade, me fez mais ébria com propriedade [uma vida com drinkability tem lá sua graça!], me permitiu aprender só por prazer, a harmonizar a vida além da palavra. 2015, na lente de aumento, foi um ano maldoso, intolerante, da liquidez nociva dos pequenos grandes bandos. Parece até que 2015 foi dirigido por Wes Anderson: tem lá seus filtros de cores que nos fazem fugir do nosso tempo com certa elegância, mas também só pode ser divertido se você não fizer parte dele – o que me faz achar que 2015 realmente tenha sido um bom entretenimento para quem foi apenas espectador, ainda que seja difícil de classificar entre a comédia de mau gosto e o drama de estranheza duvidosa. Ainda assim 2015 merece o meu “muito” obrigada: Pela dedicatória no livro "Inteligência das Coisas Ce...

O QUE QUER QUE SEJA

Que seja insuficiente, mas que seja. Na proporção de algum segundo. Na medida do possível. Em um instante que não seja qualquer. Que seja inteiro, ainda que acabe daqui a pouco. Que seja como aquela oração que a gente perde um pedaço entre vigília e sono, mas que não perde a fé. Que tenha gosto reconhecível mesmo que o paladar venha a falhar com o passar do tempo. Que seja além das entrelinhas, já que é de toda vontade. Que seja derramamento, euforia e corpo cansado. Exatamente nessa ordem. Equivocadamente nesse desfazer nada retilíneo entre coxas, pés e lençol disforme. Que até seja fraqueza, desde que não seja culposa. E o que quer que seja o nome que se dá a isso, que tenha desejo, satisfação e palavra miúda ao pé do ouvido. Uma putaria qualquer dessas que a gente faz romance.