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O FEVEREIRO DOS CARNAVAIS

Te agradeço em bloco, na rua, descalça, [des]pretensiosa. Te pertenço em terça-feira vitoriana, com certo requinte, confundindo coração de Arlequim com Pierrot. Te abrigo na antiguidade dos meus prazeres em dias contados pela religião que não me pertence. Faço fevereiro todo mês de carnaval. Até aqueles que passam vazios, sem cores, sem festas, sem alguma alegoria. Te agradeço inteiro.

ACERVO DE AFETO

Não, eu não recomeço. Não sei como se faz para voltar todas as casas e recomeçar do zero. Do ponto de partida. Do início das coisas. Eu não sei fazer isso que todo mundo diz que faz. Eu apenas continuo. Continuo o ano que acabou em outro. O amor que começou em amor que permanece. Poesia em prosa poética. Nem sempre o meu continuar é melhor do que quem recomeça do zero, mas é a minha maneira de estar no mundo. Eu continuo pessoas. Faço delas a família que escolhi e quando não fazem mais sentido [finalmente] aprendi a deixá-las num passado de quando era bom. Eu continuo lugares. Chego de mansinho e quando vejo é uma espécie de casa.  E devo continuar 2014 em 2015 assim como em todos os outros anos: Talvez com vontade de outros lugares, de outros corações, com outra trilha sonora, insistindo em continuar ao invés de recomeçar. Sobre 2014: Comecei o ano na Ilha . Fiz da pista a minha própria dança ao som de Lulu . Fui me divertir no céu mais largo das capitais . Depois perdi o amor...

CORAÇÃO

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Sempre prestes a explodir entre sístoles mal educadas e diástoles de toda ternura, ela confunde os corações mais distraídos que insistem em versões distorcidas dela. De tanto marcar passos, garantiu alguma beleza na dança de improviso entre o vai e vem dos seus impulsos, que por tantas vezes premeditou e fingiu acaso. Por sentir muito, deixou o que era casa para se repetir em outro lugar. Um lugar que pudesse fazer veraneio. Um lugar que pudesse exibir a intimidade semilunar dos seus pontos finais que insistem em largos traços. Um puxadinho sentimental para ocupar o que [nela] transborda sem jeito, com toda eira e delicada beira.

TANTA GENTE NESSE MUNDO

Tanta gente nesse mundo e fui resistir logo em você, que bebe o mesmo café desprovido de hora, que dispensa os fones de ouvido, que troca o dia pela noite, que perde a linha no parágrafo, que faz da nossa intenção de relação metalinguagem da sua ficção. Tanta gente nesse mundo e você, justo você, apareceu quando já tinha dona, zona e conforto e eu, uma prudência idiota de não querer escandalizar a vizinhança.

CONVENHAMOS: HÁ DIAS QUE NÃO TE QUERO BEM

Há sentimentos ruins também. Às vezes a minha raiva te destrói em migalhas impossíveis de juntar e é como se pedacinhos de você não fossem suficientes para deixar tão mal a parte que me sobra. Há egoísmo também. Por vezes me vi desejando que dependesse de mim só para [te] ter mais tempo disponível. Há tanta coisa sem nobreza quando não estou bem que fico pensando se ruindade tem cura. Porque vez ou outra acho que a vingança é prato fino, tipo francês, com talheres de prata, que esfrego na sua cara, desejando que lamente tudo que não seja eu. E já que tirei o dia para admitir coisas, vou logo dizendo antes que eu seja acometida por algum arrependimento: depois disso tudo rezo para um deus que não existe e peço perdão. Minha consciência, descabida da delicadeza dos que afirmam não desejar mal a ninguém, precisa desse tipo de ritual. Nem sempre é fácil admitir, mas há dias que não te quero bem. 

O MEU AMOR É ALGUMA COISA ENTRE O QUE OUÇO E VEJO

O meu amor é alguma coisa como Dave Matthews Band tocando no jardim de casa para a vizinhança toda ouvir, mas que dá vista só para o meu olhar. E de alguma maneira sei que consegue ver. Então não desista. Continue um pouco mais. Pelo menos até a música acabar. 

DAS EMOÇÕES QUE PARECIAM SER

Continuamos como antes: sem lugares e amigos em comum, com fuso horário parecido, com vontade de aquecer o que ainda é inverno, sem [quase] nada que nos ligue nesse mundo tão pequeno e distante. Pensei que tínhamos tido vontade de querer acontecer no outro, mas ainda não entendi o tudo que parecia ser e que, do nada, nos fez tão desconhecidos como antes.