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UM DIA A GENTE TROCA DE LUGAR E VAI FICAR TUDO BEM

Às vezes é difícil entender que trocamos de papeis e que daqui por diante eu preciso cuidar de você, e que você precisa me ouvir e andar devagar para chegar. Não quero que me confunda com você quando eu tinha cinco anos, mas uma hora isso iria acontecer: os monstros imaginários se vestem de gente de verdade e são capazes de ferir até corações calejados. Não é por mal, mas tem gente que não é do bem, e eu sei que posso cuidar para que eles não cheguem até você. Então pare de reclamar e me escuta, afinal, ter menos idade do que você, nessas horas, nos dá uma larga vantagem.

ME CONTARAM SOBRE MIM

Me contaram que eu não te dei chances. Que eu não li seus sinais. Que eu subestimei suas artimanhas para chegar até mim. Me contaram que eu fui prepotente. Que corrigi erros que poderia conviver. Me contaram que você foi romântico comigo e que as flores, os vinhos, os chocolates não foram mais do que alegorias do que você tentou dizer durante todo esse tempo. Me contaram que enquanto você fazia espetáculo, eu cobria os olhos com a cortina. Me contaram tanta coisa sobre mim que eu não vi, que confesso: não sei onde estive durante todo esse tempo. E me desculpe por ter sido distraída. Não foi de propósito. Não era para não ter sido, se é que você me entende.

TUDO É UMA VERSÃO DE OUTRA COISA

Antes de decidir entre a Guerra Fria e a Terceira Guerra Mundial preciso que saiba que seja lá qual for a minha escolha, ela será totalmente pessoal. Tão pessoal que pela primeira vez na vida vou deixar todas as possíveis versões de todas as histórias de lado e vou cuspir só a minha verdade. A verdade que deveria fazer parte da lista das suas. Que deveria ser discutida em voz alta. Que deveria ser levada em consideração.

COR DE LARANJA

E no final das contas era tudo culpa da cor do cabelo. Clementine pintava de azul para esquecer o que a maltratava, mas a pequena do Chico entendeu mais depressa que pintar de laranja era sinal de que tudo ficaria bem, ainda que o amor se perdesse no largo espectro de suas idades.

FRAME

Tinha cor. Tinha a impressão de todas as digitais sem nenhum pixel de resolução. Tinha dor e nenhuma cor parecia suficiente para ser exata. Tinha amor e escapava pelas bordas imaginárias e plásticas. Ele era várias metades de três quartos mal recortados em lembranças sem tons de infância. Ele colecionava-se em pedaços descabidos de arte. Ela o juntava em supostas notas de toda verdade.

TRAMELA

Ela, de fios curtos e brancos, já sentia o cansaço de ter pulado tantas janelas. O cansaço de ter guardado todos os segredos que não eram dela. O cansaço do discurso firme do silêncio. Um silêncio de quem já tinha ido embora. Um silêncio de quem cala, mas não consente. O cansaço de quem muito sente e nem percebe que o peso que saltou dos seus ombros já não existe mais.