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AINDA SERÁ AMOR QUANDO NADA MAIS DISSO EXISTIR

Faz tempo que não estamos juntos. Desde sempre, para falar a verdade, mas a nossa não-história é a história mais linda de todas. É quase esquizofrenia [o tempo que não estivemos juntos e a beleza que há em nós] e ainda assim me pego sorrindo contando de você para os outros. Das coisas que fizemos juntos. Das diversas maneiras que você me diverte. Dos seus presentes com mania de grandeza. É quase indecência confessar que não estivemos juntos mesmo tendo o outro por todo tempo. Sempre foi amor, eu sei, ainda que tenhamos estado em outros corpos, em outros olhares, em outras histórias e não na nossa. Ainda será amor quando nada mais disso existir.

33th

Ela repete, insiste, pisa duro, dá uma de mimada, quase perde a linha, confunde teorias, declama manifestos de intenções como se fosse poesia, olha de lado com reprovação, fala alto [e não admite que grita], perde-se em silêncio [e sorri ao invés de dizer o que já deveria ter dito, já que o que sente é demais de bonito]. Ela, toda errada, cheia de mania, de coração bobo, de estupidez infantil, de clichês inventados, de saudades desesperadas, de paixões urgentes, de amores para a vida toda, faz-se parágrafo para a nova temporada. Sorrindo, toda boba, porque a versão 32th foi cheia de graça [ela confessa os desalinhos, e jura ter se desculpado em abraços inteiros qualquer vestígio de dor]. Sorrindo, toda boba, porque ela acredita que insistindo, pisando duro, declamando intenções, a temporada 33th caberá em qualquer canto de seus possíveis exageros. [E ela insiste: continua o tipo quase doce, quase ácida, quase tudo-ao-mesmo-tempo, como tempos atrás]

HOUVE PRINCÍPIO E TUMULTO

Ele a abraçou. Tomou cuidado para parecer que já tinham se abraçado daquela maneira. Respirou [des]compassadamente. Procurou não dizer nada enquanto tateava o corpo dela com certo lirismo sofisticado.  Ela, pela primeira vez, permitiu que o abraço dele fosse completo. Houve princípio e tumulto.

DIZEM POR AÍ QUE SE NÃO HÁ COMEÇO, NÃO PRECISA TER FIM

Ela premeditou cada parágrafo. Cada sentença não dita. Cada desculpa esfarrapada. Cada tentativa de começo. Cada delírio de despedida. Também ensaiou alguns discursos. Um quase-manifesto do amor que nunca foi usado. Uma quase-lista de razões disfarçadas de motivos. E tentou olhar nos olhos por mais tempo do que todos os antes, afinal, ele era do tipo intenso. Ele perceberia. Ele perguntaria. Ele olharia nos olhos por mais tempo do que todos os antes. [E ela não entende em que momento o futuro do pretérito tornou-se condição]

DOS FINS

Ela: optou pelos diálogos compridos e comprimidos pelas risadas, pelos exageros [des]cabidos de leveza, por aquele amor romântico que todos dizem que um dia acaba, pelas canções cafonas e todas as outras gentilezas. Preferiu a sedução que permitia seus trinta e poucos anos. O direito de não ter de se preocupar com as metáforas, com as ironias ou qualquer licença poética [elas aconteceriam, com ou sem ele]. Ele: optou pelo monólogo, repleto de "eus" esmagados por alguma fraqueza, pelos exageros [des]cabidos de sutileza, por aquele amor volátil que renova a cada boca sem nome, pelas canções que ela preferia, mas por ouví-las alto demais, achou que eram só suas. Preferiu a sedução que permitia seus trinta e poucos anos. O direito de não ter de se preocupar em dividir os dias, os silêncios, as orações subordinadas dela [elas aconteceriam, entendendo-as ou não]. Eles: Ela virou a literatura dele. Ele a observa em seus breves parágrafos mínimos enquanto ela vive com outro amor. E...

QUASE AMOR

Ela, quase sem jeito, olha para ele como quem pede para voltar naquele instante em que decidiram, por  [in]competência, não fazer nada. Aquele tipo de decisão burra, própria do silêncio. Aquele tipo de nada que define tudo. Aquele tipo de cuidado que não se deve ter. É isso: ela não quer mais cuidado. Ela não quer que ele se importe com a hipótese imbecil de que fossem capazes de magoar o outro com sentimentos bons. Justo ele que já tinha passado pelas provas de resistência, de dor e de algumas ironias dela. Justo ela, que já tinha desperdiçado amor em tanto lugar nenhum.  E ela, ainda sem jeito, não sabe como dizer que esse tal de cuidado pode ficar fora daquele instante, até que decidam, por conveniência, algum pleonasmo romântico. Um "bem que eu disse" numa rima pobre qualquer.

TANTAS VERDADES

Ele, exagerado, pretensioso, [des]medido, de intenções grandiosas e tropeços infantis, dedica pequenas gentilezas para ela. E ela, que detesta grandes vãos,  não percebe.   E ele não entende como pode o amor não caber naquele pedaço de parede. Aquele mesmo pedaço que ela se fez presente. Antes de todos os dias depois de hoje.