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ARTE DE AMPLO ESPECTRO

"Cuide de Você" poderia ter sido apenas a última frase de um e-mail de despedida. Poderia parecer [in]delicado. Poderia ser [des]necessário. Poderia ser tudo isso junto e ainda assim ser apenas uma maneira [des]cuidada de pedir cuidado. Mas quando você está diante de "Cuide de Você", na versão da Sophie Calle [aquela que recebeu o tal e-mail do até então namorado, terminando a relação por e-mail], você vê cores, vê movimentos, vê [dis]sabores que não são dela de fato, mas são tão bem desenhados e articulados, que você [quase] se deixa enganar. Afinal, ela não respondeu ao e-mail. Ela não telefonou pedindo satisfações. Ela enviou o e-mail para 107 mulheres e pediu que cada uma delas interpretasse a tal "carta" de acordo com suas profissões. Disso, fez uma exposição de um sentimento que não é dela, mas é como se fosse. Como ela mesma diz: " Uma forma de ganhar tempo antes de romper. Uma maneira de cuidar de mim". A exposição esteve em São Paulo se...

VIDEOTAPE

Ela o desenha em traços mínimos, discretos, sussurrados. Ele a separa em sílabas tão mínimas quanto os traços dela. Ela precisa de cores em sustenido. Ele prefere a repetição poética dos fonemas todos, enquadrados em alguns milímetros em preto e branco. Ela não quer sequências óbvias. Ele muda a ordem das coisas. Das coisas todas. Em sintonia. Em breves batimentos minimalistas. [P.S.: Esta é minha versão para a música "Videotape" do Radiohead]

ENCONTROS & DESPEDIDAS

É preciso leveza para se pertencer, e alguns encontros e desencontros para ser [in]completo. Esta música fala sobre isso. Sobre nós. Sobre as coisas que não temos mais. Das coisas que teremos para sempre... [Hoje ele faria aniversário]  Encontros e despedidas by Maria Rita on Grooveshark

31th

Lived In Bars by Cat Power on Grooveshark   As narrativas todas escapam. E você, que já não tem mais idade para chorar sem motivos, as recolhe em ordem biográfica. Os versos todos são desprovidos de rimas. E você, que ainda não tem idade para se esconder em licenças poéticas sofisticadas, os toma como verdades absolutas. Sim, você. Aquela que coleciona sentimentos desnecessários, que viveu em histórias emprestadas, que rabisca aforismos fora de rítmo. Aquela, das verdades em cores absolutas, dos argumentos em parágrafos relativos. Você, dona das narrativas em todas as pessoas, escapa. Tento usar dos pronomes oblíquos, mas aos 31, chamo de "você" a parte de mim que acusa "aquela" me pertence por direito. Aos 31, já não posso mais ser somente eu. Sou feita de referências. Umas bibliográficas. Algumas afetivas. Outras tantas que não sei de onde vieram... "... Nós vivemos em bares. E dançamos em mesas." [Lived in Bars - Cat Power]

ELOGIO AO AMOR

O meu amor tem quatro tempos. Tem imagens e diálogos que se completam em telas duplicadas. Tem falas em preto e branco. Tem olhares nas cores todas. Tem passado em verde-limão, em sépia, em vermelho rubi. O meu amor tem ritmo descontínuo. Tem inquietação. Tem tranquilidade. O meu amor não é pronome possessivo. O meu amor tem pronomes de ângulos oblíquos. Tem teoremas que escapam entre as expressões. Elogio o amor para conservá-lo. Para sentí-lo sempre por perto. Para aprender sobre o cuidado das coisas todas. Das que não vejo. Das que não entendo. O meu amor tem alguns traços de Godard.

O PLURAL DOS OUTROS LUGARES

Ela já tinha dançado alguns descompassos, em outros passos, usando outros sapatos. Era dona de trechos ritmados. Era dona do plural dos outros lugares. Lugares que não eram seus de fato. Lugares que já foram conjugados. Fora dos modos. Fora dos gêneros todos.

OUT-DOOR

Chega de poesia-espetáculo. Chega de apreender saudade anônima. Não quero a tua poesia concreta dispersa nos caminhos que não são mais meus. Chega de lugar comum. Os versos que te faltam não precisam de manifesto algum. O lirismo precisa ser urgente. Mesmo tempos depois. Saiba: de tudo resta um pouco.