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35th

De lá pra cá, amontoados. Alguns cheios de afeto. Outros dispensáveis. E quase todos com a dramaticidade em proporções de seriados de TV. Aquela que [te]  faz sorrir em dias complicados. Aquela que também [te] faz chorar de emoção barata. De cá pra lá, saudades. Algumas doloridas e todas as outras de justa alegria. Entre cá e lá, ela também aprendeu a rezar. Não como todo mundo faz. Não com a formalidade em respeitar a hierarquia dos santos até chegar a Deus, mas com a intimidade de quem acha que a poesia pode ser a oração mais adequada para se dizer o que se sente, o que se quer e o que não se quer mais. Entre lá e cá, ela faz exigências, manifestos acalorados e discursos livres de toda retórica, mas ainda a confundem com polêmicas que, de fato, não são dela, e por dedicar-lhe tanta causa vazia aprendeu a usufruir da maciez da cama e da perversidade da fama. Aos 35 preserva o [seleto] gosto e paladar agridoce com notas picantes que nem todo mundo nota. Que nem todo mundo gost...

NÃO ERA AMOR

Não, não era amor. E ela sabia disso desde antes do início. Não era amor, mas era importante. Não era amor, mas era de uma felicidade que cabia no conforto de um abraço que protege. Não era amor, mas faziam dele cama, chão, e todo espaço que tivessem ao alcance. Não era amor, mas era alguma coisa parecida. Não era amor, mas todo resto estava lá.  

UM DIA A GENTE TROCA DE LUGAR E VAI FICAR TUDO BEM

Às vezes é difícil entender que trocamos de papeis e que daqui por diante eu preciso cuidar de você, e que você precisa me ouvir e andar devagar para chegar. Não quero que me confunda com você quando eu tinha cinco anos, mas uma hora isso iria acontecer: os monstros imaginários se vestem de gente de verdade e são capazes de ferir até corações calejados. Não é por mal, mas tem gente que não é do bem, e eu sei que posso cuidar para que eles não cheguem até você. Então pare de reclamar e me escuta, afinal, ter menos idade do que você, nessas horas, nos dá uma larga vantagem.

ME CONTARAM SOBRE MIM

Me contaram que eu não te dei chances. Que eu não li seus sinais. Que eu subestimei suas artimanhas para chegar até mim. Me contaram que eu fui prepotente. Que corrigi erros que poderia conviver. Me contaram que você foi romântico comigo e que as flores, os vinhos, os chocolates não foram mais do que alegorias do que você tentou dizer durante todo esse tempo. Me contaram que enquanto você fazia espetáculo, eu cobria os olhos com a cortina. Me contaram tanta coisa sobre mim que eu não vi, que confesso: não sei onde estive durante todo esse tempo. E me desculpe por ter sido distraída. Não foi de propósito. Não era para não ter sido, se é que você me entende.

TUDO É UMA VERSÃO DE OUTRA COISA

Antes de decidir entre a Guerra Fria e a Terceira Guerra Mundial preciso que saiba que seja lá qual for a minha escolha, ela será totalmente pessoal. Tão pessoal que pela primeira vez na vida vou deixar todas as possíveis versões de todas as histórias de lado e vou cuspir só a minha verdade. A verdade que deveria fazer parte da lista das suas. Que deveria ser discutida em voz alta. Que deveria ser levada em consideração.

COR DE LARANJA

E no final das contas era tudo culpa da cor do cabelo. Clementine pintava de azul para esquecer o que a maltratava, mas a pequena do Chico entendeu mais depressa que pintar de laranja era sinal de que tudo ficaria bem, ainda que o amor se perdesse no largo espectro de suas idades.