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LAMBE-LAMBE

Da ponta dos dedos, o gosto doce de toda emoção estética. Do paladar incompreendido, vaias amargas. Da defesa contra o novo, o sabor metálico que acusa de estrabismo excessivo o olhar periférico. E de 22 em 22, a semana, toda ela, fez-se linha do tempo. Atemporal em medidas e formas [in]exatas.  

FERNANDO & CLARICE

Não sei dizer ao certo em que momento nos perdemos, mas te reencontrar tem sido difícil. Como disse Fernando, tempos atrás, "as palavras estão precipitando a nossa derrota", e você, da maneira mais indelicada possível, insiste em mostrar que viver apenas não basta. A nossa intimidade é tanta, que me escapa. Escapou por uma ligação não atendida tempos atrás. Escapou aos meus olhos em seu discurso travestido de ficção mais recentemente. Não sei se você sabe, mas toda Clarice sofre de alguma urgência, e todo Fernando que se preze deveria saber que toda urgência esbravejada trás um medo de não ter o que é importante por perto. De vez em quando, me pego torcendo para que você não saiba de nada disso. Que tenha de fato, partido, para algum lugar que pudesse rir, ironicamente, das tentativas vazias e tristes de trazê-lo de volta. De vez em quando eu sinto saudade, mas é uma saudade de um lugar longe desse aqui que estamos agora. Tenho experimentado outros cafés. Tenho conhecido...

O TAMANHO [IDEAL] DO SILÊNCIO

Era preciso certo silêncio. Mínimo. Quase imperceptível. Exageradamente exato. Aquele tipo de silêncio que faz a gente perceber que gestos também falam, que sorrisos são gargalhadas sofisticadas e que a distância entre nossos silêncios é como ponto e vírgula. Ocupa pouco espaço e nos dá tempo de fazer sentido.   De nada adianta a nossa respiração [des]compassada em silêncio rarefeito. De nada adianta prolongar silêncio para nos fazer [des]conhecidos. Era preciso certo silêncio, e não qualquer silêncio.

UM ROTEIRO DE INTRIGAS PARA FELLINI FUMAR

Não, não sou o que você pensa. Tão menos o que você quer. Não faço parte do seu mundo, dos seus surtos, da imensidão de tempo vazio que te veste. Não quero conversar. Não quero olhar como Capitu. Não quero transformar em romance ou tragédia o que me parece comédia. Não sei se te contei, mas não gosto das comédias. Não gosto do que faz rir. Valorizo os sorrisos. E a diferença entre os dois não é sutil. Não, não sou sua história de amor, de dor, nem de nada. Não sou enredo, contexto, nem pretexto. Não sou desculpa. A minha maneira de dizer é esfarrapada, mas não é desculpa. E ainda assim você me culpa por aquilo que não somos, não temos e não conjugamos em primeira pessoa. Não tem plural aqui. É a minha versão e a sua. Separadas. Separadas o suficiente para que você não faça como Bentinho, que fez da sua versão de Capitu, a versão original.    E quer saber?!   A vida que você quer não cabe no perímetro depurado machadiano.   Se Bentinho fez de uma parte, o to...

VONTADE

Era passado. Era quase adolescência. Mas deu-se coincidência estarem lá, no mesmo lugar, no mesmo sorriso nervoso, na mesma vontade em [in]fidelidade cúmplice dos seus corpos. Ela já tinha feito dele poesia mal acabada. Ele já tinha esquecido nela, toda falta de propósito. E tudo pertencia, no pretérito, à justa forma deles.  Mas tempos depois ela esbarrou [já adulta] no verde dos olhos do menino que sempre foi problema. E ele tropeçou [já homem feito] nos passos lascivos da menina que sempre abusou de ser romântica. Eram outros. Eram quase desconhecidos. Mas ainda sustentavam a mania de grandeza de pertencer a eles, neles.

34th

Ela nasce em todo julho. Ela nasce inverno em todas as cores dos seus tantos cachecóis. Ela nasce em toda tarde gelada em curta-metragem. Prefere películas diminutivas para que caibam mais versões dela mesma.  Ela nasce em [des]aniversários premeditados. Costuma deixar rascunho como obra acabada.  Prefere os ensaios abertos, os amores no plural e a fidelidade de cada um deles. Ela nasce em cada nota de blues. Dizem que ela é culpa do sol em câncer e da influência da lua. Ela jura que é toda ficção, embora tudo seja verdade.  E que a temporada 34th seja de verdades em larga latitude, em doces episódios, em ironia sofisticada, em coisas importantes. E se não for importante, que seja pelo menos divertido. Amém!

COMO SE FOSSE WOODY ALLEN

Se pudesse, narraria os próprios diálogos. Aquela coisa quase-legenda-explicativa-desnecessária daquilo que se disse e o que se quis dizer de fato. Se pudesse, faria como Vicky e Cristina em Barcelona, mas [lhe] faltava certo requinte, ainda mais em comédias românticas. Ainda mais quando impor a própria   presença se faz redundante.  Se pudesse, narraria os diálogos que não eram seus, como se fosse Woody Allen e suas Melindas. Mas ser como Woody Allen dava trabalho, ainda mais quando se tem como verdade a versão que [lhe] convém. Ainda mais quando, ironicamente, a rima pobre se faz presente entre comédia e tragédia.