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ZOMBARIA

Ele fazia pouco da vida. Era intenso. Berrava aos montes. Excedia nas expressões, nos gestos, nos absurdos. Brigava para ter razão. Deu porrada além dos murros em ponta de faca. Acusou todo mundo de insensatez. Vendeu a alma ao diabo. Hipotecou o coração. Cuspiu nos bons modos. Exerceu o poder que ele próprio lhe deu. Fez o que bem quis com a vida. A dele e a dos outros. Foi insuficiente e fez pouco. Tirou o sarro o quanto pode. Depois, culpou todo resto do mundo por não entender os seus motivos. Porque os motivos, para ele, justificam os fins e determinam os meios.

THIAGO PETHIT [08.06.2012 - SANTO ANDRÉ]

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  [Thiago Pethit  - Sesc Santo André - 08.06.2012] Era uma vez uma inspiração... ela começou em algum agosto de 2010, quando ouvi [e vi] pela primeira vez Mapa-Múndi, do Thiago Pethit. Na verdade, Mapa-Múndi foi responsável por aquele sorriso à primeira vista, a inspiração de fato veio depois de ouvir, no repeat, por dias e dias e mais dias, "Fuga N ° 1". E há todo um superlativo exato em dizer que "Berlim, Texas", por completo, é uma obra-prima que parece inacabada, não porque haja falta, mas porque a cada show do Thiago Pethit, você percebe que cabe mais. E por caber mais, tenho dado uma nova versão à fuga, ao mapa-múndi, ao forasteiro... Uma maneira de tomar emprestado, sem aos menos pedir licença [ainda que seja poética] a algo que parece meu, por direito adquirido e afeto.  "O menino do campo de girassois" é a minha aventura literária. Há muita inspiração nele. É para meu pai [em mais uma daquelas tentativas de tornar para sempre o que sem...

ESSA SUA MINEIRICE

Ele a seduz com uma mineirice fora de propósito. Exagera nas sílabas todas, no queijo com goiabada, no café forte em dias quentes. No diminutivo de todas as palavras. Ele talvez desconfie, mas ela acha que queijo com goiabada é a versão ideal dos Capuletos e Montecchios e que Shakespeare talvez tenha exagerado no gosto [duvidoso] sobre o amor. Ele talvez ainda não saiba, mas o café forte até nos dias quentes é de todo propósito [dela].

À MODIGLIANI

E a menina, que já não tinha mais idade para não saber das coisas, sorria com os olhos às cores de Modigliani. Talvez se não entendesse do paladar encorpado da vida, não se importaria com as notas de sulfitos. Se não fossem os taninos, não saberia que os traços, longilíneos e propositais, contornam a alma. A alma que esconde os olhos mais desavisados. A alma que confunde dança e embriaguês.

MARCELO JENECI [18.05.2012 - SANTO ANDRÉ]

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  [Marcelo Jeneci - Sesc Santo André - 18.05.2012] A minha primeira impressão sobre Marcelo Jeneci foi praticamente uma intervenção. Ouvi 'Felicidade' pela primeira vez numa noite fria paulista, tomando chocolate quente com conhaque ao lado do MASP, num fone de ouvido desesperado da carioca, jornalista e amiga improvável, que parou a conversa, a fotografia, o brinde e tudo ao redor porque eu precisava conhecer o dono de 'Feito pra Acabar'. De lá pra cá, tomei emprestado algumas faixas, comprei o álbum, coloquei no repeat. E na sexta-feira passada lá estava ele: bem de perto, bem ao lado, num show quase particular.  Confesso que precisava da delicadeza de Marcelo Jeneci depois de dias tão indelicados. Talvez por isso insista em ir a shows mesmo em sextas-feiras frias, cansadas e tristes. Parte da minha história está em stand by num vai e vem entre a vida e o que há depois dela. Sim, "a gente é feito pra acabar... e isso nunca vai ter fim!"

ELE ERA UM COPO D’ÁGUA EM 3MG ESQUECIDAS DE RISPERIDONA

Ele a amava. Ele a desejava. Ele a temia. Ele brigava com ela em silêncio. Em longas gritarias imaginárias. Ele a assustava. Ele a ameaçava entre trancos, barrancos e delírios. Em suicídios fictícios. Ele fez dela crise. Ele fez dela romance. Ele fez dela amor no futuro de todos os pretéritos.  Teriam sido felizes se não fossem eles.

O AMOR DELE

O amor dele cabe na juventude dela. O amor dele se confunde ao vê-la fazendo planos, como se juntos, tivessem todo tempo do mundo. O amor dele cabe em seus olhos, que não cansam de degustar os sorrisos dela. O amor dele começou sem querer, tipo encantamento. Tipo coisa de menino. Tipo amor que não sabe explicar de onde vem. O amor dele cai pelas bordas. Toma emprestada “essa pequena”, do Chico, embora ela insista que nunca pensou em ter os cabelos cor de abóbora. O amor dele é contemporâneo, mas os outros insistem em dizer de outras décadas. O amor é todo dele, para ela.