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DIZEM POR AÍ QUE SE NÃO HÁ COMEÇO, NÃO PRECISA TER FIM

Ela premeditou cada parágrafo. Cada sentença não dita. Cada desculpa esfarrapada. Cada tentativa de começo. Cada delírio de despedida. Também ensaiou alguns discursos. Um quase-manifesto do amor que nunca foi usado. Uma quase-lista de razões disfarçadas de motivos. E tentou olhar nos olhos por mais tempo do que todos os antes, afinal, ele era do tipo intenso. Ele perceberia. Ele perguntaria. Ele olharia nos olhos por mais tempo do que todos os antes. [E ela não entende em que momento o futuro do pretérito tornou-se condição]

DOS FINS

Ela: optou pelos diálogos compridos e comprimidos pelas risadas, pelos exageros [des]cabidos de leveza, por aquele amor romântico que todos dizem que um dia acaba, pelas canções cafonas e todas as outras gentilezas. Preferiu a sedução que permitia seus trinta e poucos anos. O direito de não ter de se preocupar com as metáforas, com as ironias ou qualquer licença poética [elas aconteceriam, com ou sem ele]. Ele: optou pelo monólogo, repleto de "eus" esmagados por alguma fraqueza, pelos exageros [des]cabidos de sutileza, por aquele amor volátil que renova a cada boca sem nome, pelas canções que ela preferia, mas por ouví-las alto demais, achou que eram só suas. Preferiu a sedução que permitia seus trinta e poucos anos. O direito de não ter de se preocupar em dividir os dias, os silêncios, as orações subordinadas dela [elas aconteceriam, entendendo-as ou não]. Eles: Ela virou a literatura dele. Ele a observa em seus breves parágrafos mínimos enquanto ela vive com outro amor. E...

QUASE AMOR

Ela, quase sem jeito, olha para ele como quem pede para voltar naquele instante em que decidiram, por  [in]competência, não fazer nada. Aquele tipo de decisão burra, própria do silêncio. Aquele tipo de nada que define tudo. Aquele tipo de cuidado que não se deve ter. É isso: ela não quer mais cuidado. Ela não quer que ele se importe com a hipótese imbecil de que fossem capazes de magoar o outro com sentimentos bons. Justo ele que já tinha passado pelas provas de resistência, de dor e de algumas ironias dela. Justo ela, que já tinha desperdiçado amor em tanto lugar nenhum.  E ela, ainda sem jeito, não sabe como dizer que esse tal de cuidado pode ficar fora daquele instante, até que decidam, por conveniência, algum pleonasmo romântico. Um "bem que eu disse" numa rima pobre qualquer.

TANTAS VERDADES

Ele, exagerado, pretensioso, [des]medido, de intenções grandiosas e tropeços infantis, dedica pequenas gentilezas para ela. E ela, que detesta grandes vãos,  não percebe.   E ele não entende como pode o amor não caber naquele pedaço de parede. Aquele mesmo pedaço que ela se fez presente. Antes de todos os dias depois de hoje.

WE CAN BE HEROES | JUST FOR ONE DAY

Uns dizem que é despreparo. Outros, quase malícia. Insuficiente, não [de]cora vergonha. Paciente, atropela desejo. Faz dele fascínio. Decifra calafrios. Devora medos. Abraça. Faz dela rainha para ser rei. Faz deles, nós, em busca de super poderes. Ele quer que sejam herois. E repete isso com certa [in]conveniência. Ela o observa de perto e das opções de múltiplas escolhas, opta por abraçar desejos, na espera que ele, despreparado, malicioso, insuficiente, paciente e inconveniente, escolha atropelá-los sem culpa. Apenas por um dia.  "Oh we can beat them, for ever and ever Then we could be Heroes, just for one day" [David Bowie - Heroes]

CARREGAMENTOS MÓVEIS

Antes era uma polaroid. Alguns sorrisos antigos guardados em papel instantâneo. Questionou algumas vezes a leveza e o distanciamento que tinha entre tatear um passado que tinha levado poucos minutos para borrar de cores, e que parecia felicidade. Questionou outras vezes ter guardado tão mal que permitia vista privilegiada a qualquer descuido.  Depois foi um 3X4. Uma bobagem pequena que cabia em qualquer lugar. Uma bobagem que [in]comodava a formalidade do olhar que já tinha usado de toda a sua falta de compostura com o amor. Daí dia desses foram os carregamentos móveis. Cores nítidas. Detalhes em resolução desnecessária. E nenhum mal entendido. Você não estava lá. Em nenhuma fotografia.

THE NATIONAL [05.04.2011 - SÃO PAULO]

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[The National - Citibank Hall - 05 Abril 2011] The National fez ontem um show aqui em São Paulo com uma perfeição que não cabe em qualquer exagero [porque não foi preciso], e ainda coube em meus planos de felicidade e em alguns sorrisos bobos por estar diante de um amontoado de músicas e arranjos sofisticados. A impressão era que o show foi um "quase concerto particular para pessoas que estavam lá por admiração e uma quase-devoção". Ao mesmo tempo, ao olhar ao redor, parecia grande demais, superlativo demais e as pessoas todas ali presentes e cantando eram a prova disso. Em "Mr. November", Matt Berninger desceu do palco e o verso "I wish that I believed in fate" ficou ainda mais lindo da pista. Em seguida, Matt cantou "Terrible Love" carregado nos ombros, ainda na pista, para delírio de todos. E já no final do bis, um unplugged [de uma delicadeza sem tamanho!]: "Vanderlyle Crybaby Geek" soou como um "muito obrigado" por...