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ENSAIO SOBRE AMORES PEQUENOS

É disfarce. Tento recompor as minhas falas. Tento dizê-las com harmonia para te convencer. Para te entorpecer. E ainda assim é disfarce. Não é mentira. Não é faz-de-conta. Não é vazio. É disfarce. É constrangimento por não caber em nós o que só existe em mim. É desperdício, por não achar confortável o que há em você. É disfarce. É lingua estrangeira. É barulho. É absurdo. Quase absoluto. É um amontoado de misérias disfarçadas de afeto. É disfarce. É ensaio sobre amores pequenos.

32th

A minha vida não tem diálogos dirigidos por Richard Linklater. Na verdade, às vezes, eles possuem uma breve dislexia [des]comportada, mas são honestos [em suas verdades e sentimentos todos] como se fossem dirigidos por ele. Aos 32, as ausências, as tristezas, as palavras duras, ficam bem pequenas perto das delicadezas miúdas. As presenças, os sorrisos, as palavras que preenchem, são mais importantes. Talvez porque são poucas. Talvez porque mesmo poucas, são suficientes. [Desconfio que a delicadeza é um tipo de superlativo, mas que por descuido virou substantivo e vez ou outra, adjetivo]. Aos 32 me permito escolher os que quero bem. Os que quero por perto. Os que quero em minha casa. E vez ou outra, encontro músicas-dedicatórias. Nos e-mails. Nos cds de presentes. Nos pedidos de repertório no bar. Todos eles são pequenos manifestos de carinho. E por alguns instantes, acredito que Cameron Crowee é meu roteirista de fato. Se não da vida, pelo menos dos melhores momentos. Aos 32 tenho to...

PORQUE ÀS VEZES A VIDA É BOA E TUDO DÁ CERTO!

Não, não há tantas certezas por aqui. Nem por ali. Nem em lugar algum. A vida cheia de certezas não me pertence. Mas sabe, às vezes ela [a vida] é boa e dá tudo certo. Daqui a pouco tem idade nova. Daqui a pouco tem o grande encontro, tem bolo de chocolate, têm sorrisos vários, têm almofadas coloridas e abraços apertados. Daqui a pouco tem casa nova... E, insisto: não há certezas por aqui. Há intenções. Das melhores. Das piores. Das "do tipo cinematográficas". Porque é assim que eu gosto. Porque é assim que eu quero. Porque é assim que dá certo.

CASA PARA DOIS

As paredes lá de casa  trazem vagas referências do verbo que nos é próprio. Também ousam nos predicados: contornos imprecisos e as cores de Kandinsky juntam-se aos [in]cômodos espalhados pela sala de estar. Às vezes tropeço neles e os troco de lugar. Às vezes os trocamos por outra coisa que nos faça rir. As paredes lá de casa também fingem apego: as fotografias em desordem semântica, sorriem em ângulos e vértices que não calculamos. Às vezes as pessoas nas paredes parecem reais. Outras vezes aparecem em declarações espontâneas de afeto. As paredes lá de casa são distraídas, e ainda assim nos percebem. As paredes lá de casa são discretas. As paredes lá de casa são para dois.

COLORIDO ABSTRATO

Ali, onde os papéis estão escondidos. Ali, nas entrelinhas, dobrados, esquecidos. Em tanto lugar comum, que ela não entendeu como ainda não tinha percebido. Em tanta linguagem turbulenta, não notou o colorido abstrato em geometria nas paredes. Mas fez do sentimento obra de arte. [In]compreensível aos olhos dos outros. Exagerado aos que dizem entender dessas coisas.

PEQUENO SONHO EM VERMELHO

Te achei bonito. De sorriso cheio de graça. De palavras em [des]ordem articulada. Te achei literatura. E fiz dela pequenos parágrafos cheios de pontos [s]em reticências. Te fiz personagem. Para ser para sempre. Para que não confundam com brevidades. Te fiz princípio, mesmo com a estória pela metade. Te fiz geometria. Em ângulo obtuso. Em tonalidades todas de vermelho. Te fiz outro mundo. ["Pequeno Sonho em Vermelho" é um dos meus quadros prediletos de Kandinsky]

SE TODOS FOSSEM IGUAIS A VOCÊ

Se todos fossem iguais a você, as paredes teriam a cor da bossa nova Os passos seriam leves. O sorriso, fácil. As notas todas de rodapé estariam em letras maiúsculas. Pediriam cuidado. Seriam distraídas e poéticas como os cronópios de Cortázar. Mas as pessoas que conheço não são iguais a você. As pessoas que conheço têm os passos firmes, quase estáticos. A cor de suas paredes são monocromáticas. O sorriso, desconfiado. As notas dessas pessoas todas nunca estariam no rodapé. Gritariam qualquer coisa minúscula no primeiro parágrafo. Exigiriam cuidado. E são distraídas demais para perceber qualquer poesia em espaços pequenos e caracteres limitados. Se todos fossem iguais a você talvez eu não te contaria.