terça-feira, 19 de julho de 2016

38th

Sou ritual. Uma imensidão deles que inventei a cada temporada. Um hábito necessário de prolongar o que sinto em cada pegada na areia, a cada quentura do asfalto, a cada tato que me pede calma de uma calma que não tenho. Hoje meu ritual é de busca. Do que eu vou ser quando crescer além do que é agora. Do que eu vou querer além dos quereres que se perdem de mim por descuido ou preguiça. Para o lugar que [me] é família como forma de continuar e ganhar, ainda que haja algum descuido, ainda que sofra de alguma preguiça.

Talvez depois disso eu vá morar em algum lugar do velho mundo ou vire uma sulamericana de vivência e presença. Talvez eu case, tenha filhos, ou me aliste para o Médicos Sem Fronteiras e passe uma temporada mergulhada em um caos que [me] precisa. Talvez eu não volte e fique por lá, não para sempre porque para sempre é muito tempo, mas por tempo suficiente para entender que raiz é onde a gente está. Talvez eu volte rápido e peço ao rapaz que desafia o meu bom senso em namoro. Talvez eu fique para prolongar o afeto mais recente e resolva pagar pra ver qualéqueé do que parece poder ser um bom amor. Talvez eu pegue aquela ideia engavetada e a transforme em alguma grande coisa. Ainda não sei qual talvez que eu vá escolher, mas todos eles me parecem algo bom de viver. Porque é escolha. Porque me dá vontade. Porque é de todo prazer. Porque tem bem-querer.

E antes de continuar o que é “daqui pra frente” preciso dizer que escolher ficar por aqui hoje e marcar passagem só de ida para algum lugar é na verdade um desses exercícios para chegar mais perto das histórias que não são minhas por direito, mas são por herança – um tipo de genética construída por desavenças provençais e amores românticos, por fugas de cordel e encontros compadecidos. E preciso ir acompanhada por uma trilha sonora em língua toda portuguesa, brasileira, de sotaque que arrasta pericárdio. Como diria Bethânia, na carta [mais honesta] de amor, que leio e escuto pontualmente como oração, descobri que “sou como a haste fina: qualquer brisa verga, nenhuma espada corta.” – Acho que é isso que me faz querer ir para, quem sabe, voltar [e fazer, ser, receber...] melhor. 

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