A LAVADEIRA DE ALMAS

[A Lavadeira de Almas, Camila Morita]

2018 começou lá na ilha na companhia de quem sempre esteve na minha vida desde nosso primeiro encontro. Não sei se você tem muita gente que está presente desde o começo, mas em tempos difíceis para os sonhadores isso é um privilégio! 2018 foi repleto de dureza. Empoderaram a estupidez e a crueldade e nunca uma pré-eleição presidencial foi tão dolorida. Por consequência reorganizamos as relações, as prioridades, quem senta ao redor da mesa com leveza, quem não se incomoda com a sua felicidade, quem está junto na prática, no cotidiano - não sei como foi com você, mas esse processo também é dolorido, ainda que necessário para que haja alguma felicidade. Daí teve Radiohead depois de nove anos - mais um privilégio ter estado nos dois shows - e Buena Vista Social Club junto com a minha irmã - e insisto dizer que todo mundo deveria um dia dançar ao som de Buena Vista Social Club, curvar-se à presença da Omara Portuondo e não esquecer que a gente aqui é latino-americano e que isso é bonito demais! 2018 estreei como escritora - ainda que a vida toda eu tenha sido uma - e o De Analgésicos & Opioides virou livro no mesmo dia que eu comemoro aniversários. E novamente a vida me mostra como é bonito criar relações afetuosas durante todo percurso, pois por mais uma vez tive o privilégio de receber as pessoas mais incríveis do meu mundo neste dia, muitos abraços, muitos sorrisos, alguns viajaram e chegaram pontualmente, outras vieram logo depois nos dias e semanas seguintes, e o mais bonito de tudo é que todos chegaram - e nenhuma ausência proposital poderia ter alguma importância. 2018 pode ter sido um caos e até me forçado a provar a dor física dos tempos difíceis, mas fiz algumas pausas boas para dar aqueles passinhos [e gritinhos] de música balcânica, mediterrânea, quase cigana, quase pagode russo que a gente finge que domina tão bem.  E terminei 2018 no palco com aquele que sempre esteve na minha vida desde nosso primeiro encontro. Porque nenhum trabalho que a gente comece ou termine, nenhum móvel que a gente troque, nenhum contrato que a gente assine, nada [absolutamente nada] que não seja a série de boas relações e cumplicidade que colecionamos durante a vida tem importância de fato. Pelo menos não por aqui onde a lua mora em câncer, o sol em Fernando Pessoa, com ascendência duvidosa de escorpião e planetas entre cronópios e famas. 

Então que 2019 não seja dolorido. "A Lavadeira de Almas" [da Camila Morita] que agora habita a minha casa e o que há de lar em mim, significa a cura, e é por isso que traduz tanto além das cores e dos traços. É meu desejo além da vontade - a obra está a todo instante pelos cômodos da casa para que eu não esqueça do processo, às vezes incômodo, que leva à cura. Que a mesa continue rodeada dessa gente que [se] importa enquanto toda a música que afaga e compra briga por nós. Que não nos falte a coragem e o amor. Quem sabe um novo livro e uma estreia cinematográfica. Seja lindamente importante, 2019! 


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