segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

DOS AFETOS TODOS [OS NOSSOS E OS DOS OUTROS]

"Os afetos.
Ter tempo para cultivar os afetos..." 
[disse Pepe Mujica numa dessas entrevistas que a gente precisa rever com frequência]


2017 foi um ano cheio de afeto e um dos lugares-pertencimentos mais bonitos será sempre aquele mar intenso de Recife, que passos à direita se fazia Tamandaré e passos à esquerda Carneiros. Lugar que contém histórias minhas por direito, mas não por herança - um tipo de genética contruída por desavenças provençais e amores românticos, por fugas de cordel e encontros compadecidos - pois a história da gente geralmente começa lá longe, onde nem sempre se esteve, em gente que nem sempre existe em dias úteis, e que num olhar mais cuidadoso, faz todo sentido. Os afetos também se fizeram música, num show lindo da Maria Gadu, num espetáculo que mais parecia uma festa do Midnight Oil, naquele tributo foda em homenagem ao Belchior. Os afetos também têm nome, sobrenome, tem sabor de cerveja, café, cabe num abraço longo, quentinho, naquela conversa que não termina e que atravessa a madrugada - tenho sorte por ter amigos que são tudo isso, sempre presentes, em dias comuns, sem frescuras, sem protolocos, como deve ser! Houve afeto cheio de outono, com muito drinkability, em idioma complicado no meio dos Alpes da lindíssima Baviera, afinal, voltar ao velho mundo está sempre nos planos. E aquele afeto da vida toda, que mora onde quer que a gente esteja, se encontra em qualquer lugar, porque o importante é estar junto [e desta vez esteve presente no mar de todo tom de azul de Laguna]. 

Dos desafetos, uma lista também longa: a gente ainda é uma maioria representada por uma minoria política. [Injusto. Injusto. Injusto!]. A gente ainda esbarra em homens inseguros e vazios que ameaçam vidas e valores. O mundo corporativo ainda é tão machista quanto as piadas dentro das casas. A gente ainda acha normal tanta coisa que não deveria ser. Mas o Pepe [o Mujica] parece que insiste ao pé do ouvido: "ter tempo para cultivar os afetos..." É disso que a gente precisa!

E os quereres para 2018 continuam sendo muitos. Eles percorrem o largo e colorido espectro das segundas-feiras cheias de calma, das semanas repletas de bons trabalhos, cafés e happy hour a toda hora, aos sábados ébrios e musicais. Eles compreendem os lugares mais distantes. Eles desejam repetir aquele amor que a gente percebe no meio do trânsito, numa conversa aparentemente boba, num dia de semana qualquer. Eles planejam sessões incontáveis de autógrafos em não-biografia dos sentimentos que a gente insiste em sentir. Ele quer da gente coragem, como Guimarães Rosa, em sua literatura tão exata.

2018 quer muito e talvez só não seja maior do que os agradecimentos, porque eles são tantos que tenho perdido a conta... 

2 comentários:

  1. Que seu 2018 seja tão intenso e cheio de coisas boas como as que você narrou tão lindamente!
    Abraços.

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  2. Que seja intensamente lindo para nós, Mari!
    Salve 2018!

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