quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

ACERVO DE AFETO

Não, eu não recomeço. Não sei como se faz para voltar todas as casas e recomeçar do zero. Do ponto de partida. Do início das coisas. Eu não sei fazer isso que todo mundo diz que faz. Eu apenas continuo. Continuo o ano que acabou em outro. O amor que começou em amor que permanece. Poesia em prosa poética. Nem sempre o meu continuar é melhor do que quem recomeça do zero, mas é a minha maneira de estar no mundo. Eu continuo pessoas. Faço delas a família que escolhi e quando não fazem mais sentido [finalmente] aprendi a deixá-las num passado de quando era bom. Eu continuo lugares. Chego de mansinho e quando vejo é uma espécie de casa.  E devo continuar 2014 em 2015 assim como em todos os outros anos: Talvez com vontade de outros lugares, de outros corações, com outra trilha sonora, insistindo em continuar ao invés de recomeçar.

Sobre 2014: Comecei o ano na Ilha. Fiz da pista a minha própria dança ao som de Lulu. Fui me divertir no céu mais largo das capitais. Depois perdi o amor na asa que parecia norte. Ficou o afeto. Que é bom também. Carnavalizei alegrias [e foram muitas!]. Carnavalizei coração [porque a vida é pra isso mesmo, não precisa ser pra sempre!]. Continuei a harmonizar o lúpulo das mais desejadas. Depois com doçura. Pra achar a vida boa mesmo com a mineirice de todos os paladares. Fui lembrar da importância daquela fazenda na minha vida num show quase particular do Almir Sater. Foi melhor do que rezar. Foi melhor do que ver fotografia antiga. Chorei baixinho. Voltei a repetir carioquices [não, eu não tenho jeito!]. Voltei a fazer aniversário [como antes, com tanta gente querida]. Pra uns teve Copa, pra mim, teve outro amor. Do tipo tatuado, de veraneio, com vista pro mar. Teve viagem pra beber vinho. Depois perdi o amor em 15 dias e me entreguei a versões sofisticadas de música adolescente. Corri pra achar a vida mais bonita nos campos de flores. Harmonizei com notas alemãs de embriaguês. Corri pra [re]ver os amigos do lado de lá do Rio que nem parece de Janeiro. Voltei a harmonizar maltes. Dancei no meio de trinta mil com Arctic Monkeys. Fui fazer silêncio lá no templo, mas acho que não fui feita para não derramar palavras. Escrevi aos montes. Li gente incrível. Ganhei dedicatórias. Devo ter batido o recorde de festas no Casarão. Promovi o álbum Are We There, da Sharon van Etten, para o clássico do ano. Tatuei o coração do jeito que ele é porque sou igual a ele: com toda eira e delicada beira. Continuo gostando de gente que não precisa de hora pra chegar, tão menos para partir. Devo continuar tudo isso aí em outros lugares, em outros corações, em outros dias de semana. Quero tudo e mais um tiquinho porque a vida é feita pra satisfazer vontades. E eu tenho muitas. 

Um comentário:

  1. Oi Tati, assim como você não recomeço, continuo do ponto em que parei. Lindo texto, muito poético, bom retornar aqui =)

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