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Mostrando postagens de Abril, 2008

VOCÊ

Você sempre pediu que eu tivesse cuidado. E eu nunca entendi. Justo você, que sempre sabia o que fazer, acabou me pedindo pra ser melhor do que você foi. Não dá. Não tem como. Eu não consigo. Talvez também não queira... sabe, eu ainda te sinto bem perto. Tão perto e tão longe, que me confundo toda. Choro e riso. Cena clássica. É como se você estivesse aqui. Como sempre esteve. Onde deveria estar. Eu queria ouvir sua voz. Tenho medo de esquecê-la. Tenho medo da sua ausência. Tenho medo de não saber cuidar de mim e das tuas lembranças. E você não está mais aqui. E faz tempo. Muito tempo. [P.S.: têm dias que as saudades são maiores, e dias assim eu escrevo pra ele, escuto algumas músicas que ele gostava, mas não vejo fotografias, porque elas estragam a cena clássica do choro e do riso, dando ênfase à cena do choro. Meu pai era um cara legal. E se eu pudesse escolher alguém pra viver pra sempre, seria ele.]

AFINIDADES ELETIVAS

É Quase dia. Quase convergência. Quase alquimia. Quase conjugação mais que perfeita. (Quase somos nós. Riso contido. Descompasso ensaiado. Silêncios ritmados). Quase somos um. E os parênteses são quase sempre propositais. Você me reconhece neles. Eu te reconheço fora deles. Eu sei de você. E sei que sabe de mim também. E quase sabemos tudo de nós. É quase dissociação. É quase imperativo. É quase amor. E eu quase te odeio por não ser completo.
[e pra quem acha que eu falo de Goethe, por favor, entenda que afinidade eletiva é quase uma teoria química, que quase muda tudo em proveito de novas combinações. Quase...] Wilco - What light

EU GOSTO DA SENSAÇÃO DE SUSTENTAR O QUE NÃO PODE SER*

Conhecer alguém bem de perto me permite errar verbo, substantivo, pronome, adjetivo e ainda assim ter em mãos uma métrica perfeita... mas aí tem o telefone, a campainha, os latidos dos cachorros do vizinho e tudo isso me distrai... Quando exatamente violei a minha inteligência?! Quando deixei de entender as pessoas de Pessoa?!
[*Verso do poema "Gosto", do meu querido Dudu Caribé - mais sobre o Dudu: aqui]

PEDAÇOS DE ALGUM ABRIL

Às vezes ela acha que sabe das coisas que ele nunca disse e se distrai em teorias breves e coloridas. Ele preenche espaços vazios com discursos caretas, diálogos monocromáticos, tensão apaixonada. Ela não sabe muito sobre espaços vazios. Ele sorri. Ela observa. Ele sabe dançar. Ela o abraça em ritmos leves. Ele antecipa os dias. Ela adia compromissos. Ele fez meia dúzia de escolhas erradas. Ela tenta consertar os erros que não são dela. Ele acha que sentir saudades é cafona. Ela acha que o amor é verbo mesmo quando substantivo. Ele acha que o amor é predicado. Às vezes ela acha que sabe das coisas...